Filmes da 34ª Mostra Internacional de Cinema – Parte 4

ANO BISSEXTO, de Michael Rowe

A câmera se coloca, nos quarenta minutos iniciais, apenas para analisar, tornando o filme extremamente frio, um pouco perdido, como se quisesse confundir o espectador, mas na verdade, confuso em si. Depois disso, o filme se acha, mas o jeito posado da encenação não permite criar mais que três ou quatro grandes cenas, dando-se ainda ao “luxo” de cair em armadilhas psicológicas de pulsões sado-masoquistas. É o típico filme o qual se sente que tudo é feito para a câmera, mas o realizador quer fingir que não está presente, apostar na idéia de realismo extremo. Nessa toada, tudo fica engasgado. Howard Hawks se revira no túmulo (tudo bem, ele faz isso para a grande maioria dos filmes).

O MITO DA LIBERDADE, de David Robert Mitchell

Filme independente americano sobre adolescentes que tenta fazer um retrato adulto deste momento de descobertas. Os dramas dependem muito dos atores e eles são, em sua maioria, muito fracos. Porém, só de não ter aquele jeitão de cinema independente de Sundance já é algo.

FILM SOCIALISME, de Jean-Luc Godard

Eu gostaria de dizer que o novo filme de Godard é um filme-ensaio indecifrável, ininteligível, chato, até fascinante, certamente mal-humorado. Mas não dá. Este novo Godard é um filme muito mais claro e bem-humorado que muita gente gostaria de ver e admitir.

Parece um filme catástrofe: um desastre econômico, cultural e audiovisual. Usando um navio de cruzeiro (Titanic?) como metáfora que, na verdade, vira uma anti-Arca de Noé, Godard coleciona frases, pensamentos, imagens, sons e cria um clima de eminente apocalipse. Enquanto as “personagens” (pois são mais modelos, no sentido bressoniano) parecem discutir com uma série de aforismos o que acontece no mundo, as pessoas “comuns” não dão a mínima: jogam seu dinheiro fora em drinks na piscina e apostas nos cassinos, desperdiçam a cultura na palestra entregue às moscas do filósofo Alain Badiou. O “socialismo” do título parece se referir a um tesouro que durante muito tempo foi acumulado na mão de poucos, mas agora foi espalhado, socializado – para o bem e para o mal: a imagem. Ela registra todos os momentos, em diferentes formatos, ritmos, texturas; estas imagens são compartilhadas para estranhos que acompanham os momentos íntimos e mais banais de pessoas cuja distância é desconhecida. Nesta anti-Arca estão as pessoas que não ligam para as questões políticas do mundo nem para o processo histórico, mas que não abrem mãos da imagem, seja postando vídeos no youtube ou sendo monitoradas pelas câmeras de segurança do barco.

Apesar de uma segunda parte mais frágil, Film Socialisme é cheio de momentos de bom humor. O título em si já é uma provacação irônica: Godard não está falando de capitalismo, revolução, marxismo, dinheiro, propriedade privada, teoria político e os raios que o partam (pelo menos não da maneira ocnvencional). Ele apenas olha para o mundo (mais especificamente a Europa) e suas imagens. Simples assim.

POLITÉCNICA, de Denis Villeneuve

Villeneuve é um virtuose. Já foi possível ver isso em seu curta Próximo Andar, que passou por aqui há uns dois anos. Politécnica tem uma história muito similar à de Elefante, com a diferença de que as razões misóginas do assassino já estão às claras logo no início. Mas Villeneuve opta também por pular pelas personagens e ver os fatos sob seu ponto de vista como no filme americano que parece tê-lo inspirado de alguma maneira. Enquanto o filme de Van Sant valorizava o vazio, o acaso e, por conseqüência, criava uma sensação de impotência, Villeneuve dá atenção especial à ação e ao esforço de sobrevivência das personagens, inclusive acompanhando a vida delas após o incidente. Politécnica é, nesse sentido, um filme interessado muito mais nos efeitos que nas causas, tanto na dramaturgia como nas escolhas estéticas, o que faz dele uma espécie de anti-Elefante.

***

Uma lástima desta Mostra, mais uma vez, foi a qualidade de algumas cópias de exibição, com digitais que variavam do mini-DV ao digital da Rain e toda a gama de fomatos digitais dentro disso. Ou seja, do lixo ao assistível (ainda assim, longe de valer o que foi cobrado).

O mais impressionante de todos foi a exibição de O Ultraje, de Takeshi Kitano. Saí da sessão com dez minutos de exibição. Foi disparado a cópia mais porca que presenciei. No início da exibição algumas pessoas chegaram a gritar pedindo foco para o projecionista.

Qual o problema da organização em ser sincera e colocar no catálogo que tal filme será exibido em tal formato? Aliás, como eu, consumidor, posso me proteger disso?

Enfim, é uma bola fora que se repete ano após ano (e continuará se repetindo enquanto não rolar um grande boicote).

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