Desamaldiçoando Funny People

Eu sei que o título desse texto é inocente e pretencioso. Mas vamos combinar que Funny People foi amaldiçoado. Concordo que é diferente de, por exemplo, Tropas Estelares, que fora tachado antes mesmo de seu lançamento. Funny People ganhou capa na Cahiers e teve ampla cobertura nos EUA, ainda que a recepção tenha sido morna. Contudo, estabeleceu-se que era um filme menor e morreu o assunto. Foi até ignorado pela Film Comment; saiu direto em DVD no Brasil. E talvez seja um dos filmes mais interessantes de 2009.

Um filme de Judd Apatow sobre stand-up comedy protagonizado por Adam Sandler deveria ser uma comédia. Porém, o filme é comédia como Duro de Matar 4.0 é filme policial. Na hora em que percebem isso, público e crítica (que tem muito mais em comum do que querem ambos admitir) torcem o nariz e jogam o filme para escanteio.

Nesse sentido, Funny People foi amaldiçoado. Não é um filme que receba tachações extremas como Tropas Estelares, Tropa de Elite, A Vila, Vampiros de John Carpenter, mas quase passou em branco, muito pouco foi discutido em torno dele.

Achei um filme bem interessante primeiro pelo tom meio mórbido. Me pareceu desde o começo uma obra sobre o fim de algo. O que seria ela?

Quando Simmons está convencido de que vai morrer, há cenas com comediantes dos anos 80 e início dos anos 90, encontros particulares em casa, um jantar com vários deles (com destaque para Paul Reiser, de Mad About You) e a comemoração da descoberta de que, na verdade, ele estava curado. Nesta sequência, aparece Eminem reclamando sobre os percauços da vida e como tudo pode dar errado por melhor que você seja.

Essa mistura das personas dos atores com seus personagens é que sustenta a lamentação de Apatow, que vai no sentido de identificar uma geração de comediantes que está dando lugar a jovens nerds comuns, cujas preocupações, métodos e estilos são diferentes. Ou seja, Apatow está falando sobre a mudança na comédia, algo que ele capitaneou com uma nova geração de roteiristas e atores em filmes despojados sobre a vida de jovens comuns.

O que me soou diferente foi a falta de ressentimento. Apatow não quer lamentar a morte de uma geração que ele prefere ou pela qual tem carinho através da rejeição da sua. Ele coloca três gerações de comediantes na tela e todos, apesar do sucesso perene ou não, estão felizes em estarem juntos contando piadas e rindo um do outro. No fundo, há apenas uma constatação: o mundo da comédia mudou, como muda qualquer outra atividade, pois o tempo passa para todos.

A segunda parte do filme serve como um reforço a essa não lamentação. Simmons tenta reviver o romance com sua ex-noiva, agora casada e com duas filhas. Ele quer substituir o pai das crianças que passa mais tempo na China fazendo negócios que em casa com elas. Frente a essa possibilidade, o personagens se revela inapto à mudança, mesmo após se desprender da vida rica e vazia que levava. É impossível para ele ser um novo homem, pai de família, ligado às coisas mais pueris e comuns da vida (não me parece inocente que a mãe e as duas filhas sejam esposa e filhas de Apatow na vida real). Já Ira, seu assistente, tem mais jogo de cintura nesse quesito, o que já não é o caso quando o assunto é mulheres; esse é terreno de Simmons. Ou seja, não se pode viver uma vida que não a sua, nem partilhar uma experiência que não essa única que se pode ter.

A homenagem/investigação dos comediantes enquanto seres humanos e suas mudanças que move Funny People e mantém a mistura tênue de humor com morbidez. É um filme irregular, sem dúvidas, mas a ser visto com mais cuidado. E, em absoluto, não se trata de uma comédia comum.

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