Remissão em Tetro

A estréia de Tetro permite atestar para o novo-Coppola.

Em suas entrevistas, o cineasta americano vem sistematicamente negando seu passado cinematográfico, atacando os filmes anteriores como algo menor, manifestando seu eterno desejo de fazer um cinema experimental, de pequeno orçamento, livre. Ou ainda, o cinema que ele realiza desde Velha Juventude.

Tetro é Coppola em uma auto-afirmação: a defesa de um artista em busca de reconhecimento. Isto em si não é questionável. Porém, Coppola se apóia em outras fontes para alcançar seu objetivo. No caso, a literatura latino-americana.

Em Velha Juventude, a matriz era Garcia Márquez; agora, algo de Cortázar: jogo de espelhos e opostos que Coppola propõe: – claro/escuro, preto-e-branco/colorido, irmão mais velho/mais novo, pai/filho, artístico/midiático.

Por outro lado, há a arte como algo labiríntico e indecifrável, e do artista como um ser incompreendido: o protagonista escreve em códigos, vive num sanatório e só pode viver no isolamento. Não cabe ao artista dar pistas para uma leitura absoluta, mas apenas um rumo possível (e nisso estamos em Cortázar, m parece).

É, como apontou Inácio Araújo, uma banana para os outros. Contudo, a questão principal parece ser, antes de tudo, uma recusa de si mesmo. Boba e talvez ingenuamente, Coppola quer se afirmar com valores do “bom gosto artístico” para superar o Coppola-anterior, como se o cinema por si só, seus significantes, seu passado, seu mitos e formas fossem sujos e prostituídos, necessitando de um bom tom, uma mediação pura e ideal para estabelecer-se como arte. Ângelo Tetrocini (reparem na simbologia do nome) recusa publicar sua obra, pois o mundo é feito de tons de cinza – vaidades pessoais, relações familiares, poderes midiáticos – que contaminam o “artístico”. Coppola identifica-se por inteiro com Tetro e esquece (ou melhor, forçosamente tenta apagar-se) de si.

Contudo, o cinema não aceita subterfúgios: é uma arte bastarda que subverte o bom gosto e regurgita sua própria beleza. Quando Coppola busca na literatura e na alta cultura sua muleta de transformação e afirma-se negando ao seu mito, acaba apenas por tornar-se um pára-raios de um filme desigual com momentos às vezes belos, em outros puramente bregas.

Este tipo de resultado é coisa de iniciante, como quer o novo-Coppola.

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