Por que não amamos John Carpenter?

Revendo toda a filmografia de John Carpenter, uma pergunta fica: por que ele não está em pé de igualdade com Scorsese, Coppola, Spielberg, De Palma & cia?

A primeira possível resposta é sobre a qualidade de seus filmes o que, numa revisão de sua obra, cai por terra. Halloween, O Enigma de Outro Mundo, Príncipe das Sombras, Eles Vivem e À Beira da Loucura não fazem pequeno perto de do cânone da nova hollywood.

Outra resposta possível é a maldição recaída sobre Carpenter após o fracasso financeiro de Fuga de Los Angeles – as portas da indústria se fecharam para e ele só conseguiu fazer dois filmes até hoje: os já nascidos malditos Vampiros e Fantasmas de Marte (em 2010, Carpenter supostamente lançou o über independente The Hole – vejamos). Contudo, fracasso comercial nunca foi um indicador da maestria de cineasta algum em parte alguma de qualquer mundo. No caso de Carpenter, o que se pode dizer é que o desinteresse da indústria acarreta o buraco de revisões de suas filmografia, principalmente por aqui, onde a maior parte de sua obra permanece fora do circuito de DVDs.

Contudo, a resposta mais plausível (ou a menos mitológica, escolha) é uma questão cultural. Scorsese, Coppola, De Palma e até mesmo Spielberg em certa medida, se reportam à Europa e seus cinemas novos; – idolatram Godard, Truffaut, Fellini, Visconti, De Sica, Bergman. Carpenter – e não apenas ele; John Landis, Joe Dante e Wes Craven também – olham para o cinema B dos anos 40 e 50.

Os americanos perseguem há muito tempo seu cinema usando como baliza os europeus. Há uma competição (ou seria uma síndrome de subserviência?) velada do ponto de vista crítico dos americanos com a Europa. Boa parte da recepção crítica americana ainda se norteia pelo gosto europeu. Não se pode esquecer que foram os franceses os primeiros a encarar o cinema clássico americano como a verdadeira arte cinematográfica em detrimento do cinema de qualidade francês. E eles ainda guiam o pensamento americano sobre seu próprio cinema.

Até hoje, muitas picaretagens européias são passam pelo crivo da crítica americana. A Film Comment sempre cai nas falácias de Michael Haneke e Lars von Trier. Inclusive filmes americanos que cheiram à pompa ganham destaque – penso em A Origem e The Kids are Alright – pelo simples fato de se colocarem artisticamente frente a filmes mais “vulgares” como O Homem de Ferro ou Funny People, ignorados pelos grandes veículos críticos.

A cultura é a regra, a arte é a exceção, afirma Godard.

O poder criativo e libertário do cinema de John Carpenter lembra aos americanos quem eles realmente são. Ele fica, por apaziguamento, caraterizado como “mestre do terror” enquanto que a maestria de seu cinema está exatamente em transcender o gênero o qual recupera com consciência única.

É na economia das personagens que reside a força do cinema de Carpenter. Interessa a ele o estado mental e físico das personagens diante da câmera e as relações conflituosas que podem se desenrolar daí. O cinema de Carpenter flui através das cenas, transita pelo gênero subvertendo-o, distorcendo-o, justificando-o e transformando-o, numa atitude que no mínimo pode-se chamar de crítica. Carpenter coloca o espetáculo em favor de um momento consciente captado pela câmera. É um continuador honoris causa de Howard Hawks. Um cinema de gestos, olhares, movimentos, corpos, acontecimentos do macro ao micro, como um apocalipse religioso ou uma briga de rua. Um cinema que, antes de mais nada, se reporta ao seu tempo e espaço, filmando pessoas comuns em lugares comuns, babysitters, pedreiros, caminhoneiros, estudantes, religiosos, caçadores de aluguel.

Como o Barcelona, o cinema de Carpenter é uma série de toques de pé em pé, regido pelo imprevisto do próximo passe, pelo movimento dos corpos, pelo inquietante controle do improviso que faz cada momento ser único. Como o time catalão, é prazeroso de ver, mas aparentemente tão trabalhoso de imitar que leva à impotência de espírito aqueles que tentam reproduzí-lo. Porém, se tanto o Barcelona quanto Carpenter requerem um saber-fazer que necessita de um ponto de vista fora do senso comum, eles apenas apontam para o caso de que basta a alegria do ofício e a vontade de fazê-lo para tornar tudo isso possível.

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