Um Pouco de Água no Chopp

Sempre no período da Mostra Internacional de Cinema volta a questão da exibição de diversos filmes em cópias digitais discutíveis. Os problemas são diversos: imagem lavada, cores mortas (às vezes “inexistentes”), janela errada, baixa deifinição.

Como discute muito bem o texto da Revista Cinética, não se trata apenas de uma questão financeira, como muitos reclamam, já que o preço de ingresso é um absurdo (e, na Mostra, é mesmo). O CCBB não cobra quando exibe os filmes em formato digital, mas esse não é em absoluto o cerne da questão, pois o que interessa é o quanto a cópia de exibição é fiel à obra. Ou melhor, ao vermos um filme em DVCam, MiniDV ou DVD, o quanto estamos distante de realmente ver a obra pensada pelo diretor.

O texto é preciso: DVCam MiniDV e DVD não foram feitos para esse tipo de exibição. O 35mm, ainda que não seja infalível, sim.

Apesar disso, domingo no CCBB aconteceu um daqueles casos que complicam a questão. A cópia em 35mm de Neste Mundo e no Outro era um assasinato à obra. A imagem estava lavada, as cores todas puxadas para o vermelho, incluindo as cenas em preto-e-branco, e muitos riscos de manipulação da película ficavam aparentes na imagem. Quem viu o documentário, dois dias antes, sobre o fotógrafo do filme, Jack Cardiff, conferiu em digital trechos da obra em questão e perceberia a discrepância,

Em certo momento, me fiz a fatídica questão: estou realmente vendo Neste Mundo e no Outro? Tinha a certeza de que Cardiff, Powell ou Pressburger impediriam a exibição daquela cópia. Mas, pensando como curador dessa mostra, que fazer? Não seria o caso de exibir uma cópia em digital? O DVD da Criterion não seria mais fiel às cores em Technicolor originais?

O caso é que a reprodutibilidade inerente ao meio, as mídias digitais que facilitam a copiagem mas não garantem plena fidelidade e a dificuldade de conseguir as películas para exibição em sala de cinema no Brasil formam uma equação de difícil resolução para curadores e organizadores de mostras como a do CCBB – no caso da Mostra Internacional de Cinema, não.

Não se julga a importância de uma mostra ampla como esta da The Archers; só é necessário afirmar que para além das demandas crítico-teóricas desse tipo de evento (a busca por uma cinematográfia a ser descoberta ou rediscutida e propôr um debate em torno dela) e mercadológicas (é necessário um público que se interesse por ela), há uma responsabilidade do curador para com o espectador como indivíduo e com a cinefilia em si. Boa parte do público presente no CCBB dificilmente verá Neste Mundo e no Outro novamente. Esta experiência, distorcida, será a definitiva. Neste quesito, Leon Cakoff é negligente na organização da Mostra, já que seu poder decisão sobre que filmes exibir e a qualidade dessas cópias é significativamente maior que aquele que se propõe a realizar uma retrospectiva completa da obra de Powell e Pressburger ou qualquer outro cineasta. Este tem prestar contas com o passado; Cakoff molda, em certa medida, o futuro, forma uma olhar e um tipo de experiência cinéfila.

Mas em tempo: as cópias da mostra The Archers são, em geral, boas. O caso de Neste Mundo e no Outro é uma vírgula que não pode ser esquecida.

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