Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (Woody Allen, 10)

O Caos Reina?

O argumento mais frágil para criticar o novo filme de Woody Allen (ou, por extensão, qualquer um deles) é que se trata de mais um filme igual dentro da filmografia de filmes iguais do diretor americano. Ele faz o mesmo filme há muito tempo, o que é falso em certa medida e, ainda assim, não faz mal a ninguém e se pode chamar necessariamente de problema. Grandes diretores fizeram o “mesmo filme” durante algum tempo e esta até permite o desenvolvimento em longo prazo de idéias que ficariam reduzidas em apenas uma obra. Se este argumento pode servir em casos ruins, por que não serve quando falamos de um Hitchcock, um Ford ou um Hawks, cuja repetição de temas ao longo da obra é tão evidente?

Pois, se este argumento “mais do mesmo” não serve em sua fragilidade pendular, como justificar que Você vai conhecer o homem dos seus sonhos é um filme menor, talvez um dos menores da carreira de Allen? A preguiça. Não como tema e muito menos como resultado técnico, mas a preguiça enquanto força motora; a preguiça como legislador, juiz e executor; a preguiça enquanto medida da balança na criação artística.

Só assim para entender a falsidade de sua liberdade criativa ao abrir o filme para vários personagens e segui-los descompromissadamente pelos espaços (principalmente nos apartamentos). É uma liberdade hesitante, artificial. Os atores sempre andam enquanto dão o texto e a câmera fica girando, indo e voltando em um corredor enquanto as personagens passam por ela, eventualmente entrando nos cômodos apenas para segui-los. Allen nunca foi de decupar, porém neste caso há uma asfixia da montagem em favor de um trabalho de câmera e encenação que não se desenvolve; apenas parece o mais fácil a se fazer. O ritmo do filme se engessa com isso. Ao contrário de Maridos e Esposas onde a frouxidão da encenação e da montagem escondia um rigoroso trabalho formal de construção de um falso documentário sociológico, aqui as opções pelo cômodo e facilidades de produção trazem para primeiro plano o artifício que Allen montou no roteiro.

A história do filme é uma transição no universo das personagens: todas elas passam por mudanças quando começamos a vê-las. A vida delas parece um caos, e as personagens buscam soluções de controle para ela. Tudo, desde a concepção das personagens, passando por seus conflitos e, por fim, as soluções, funciona dentro de esquemas: o escritor promissor que não consegue repetir seus sucesso até que cai em um conflito moral ao poder roubar o (ótimo) romance de um amigo morto; um homem de terceira idade em busca de sentir-se jovem, então separa-se da esposa para relacionar-se com uma jovem prostituta que, obviamente, irá traí-lo; a mãe que busca numa vidente e na espiritualidade um afago para a dor de ser deixada pelo marido; a moça bonita e jovem em vias de casar-se que apaixona-se por um “escritor talentoso”. O mosaico de desespero alleniano é, assim, regrado, esquemático, um caos domado, funcionando como pede a regra e nomeado de “caos” apenas pro forma. Estivéssemos num filme de Fassbinder, esses arquétipos agiriam como crítica à própria instituição “gênero cinematográfico” e seus esquemas narrativos, como num teatro de marionetes que deixa aparente seu caráter ilusionista.  Contudo, aqui na “dramédia” alleniana, o objetivo é aprofundar-se nesse universo, criar um naturalismo que, mesmo cômico, remete às coisas do mundo, ao sentimento das pessoas, seus defeitos, dilemas e fraquezas. Com o desleixo desse filme – não técnico, mas criativo, não dá.

Uma das coisas mais recorrentes da filmografia de Allen é o personagem que remete à sua persona cinematográfica (o neurótico com problemas de relacionamentos e certa fobia dos defeitos humanos), seja ele interpretado pelo próprio Woody Allen ou outro ator. Em Você vai conhecer… este não está presente ou, no mínimo, não é sentido como tal. A preguiça é tanta que Woody Allen esqueceu-se de colocar a si mesmo no filme.

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