Biutiful (Alejandro González Iñárritu, 10)

Nesse Mundo e no Outro

O fim da parceria entre Iñárritu e o roteirista Guillermo Arriaga trouxe, de imediato, uma diferença importante para o cinema do primeiro: Biutiful tem outra aproximação com o mundo que não a política cósmica que operava em Amores Brutos, 21 Gramas e, especialmente, Babel. Nesta política, o mundo é regulado por uma força que é razão de ser e fim para as relações humanas e suas ações nesse mundo – e faz sentido a expressão “nesse mundo” já que a conseqüência desse modo de ver é o pressuposto de uma metafísica onde a “razão de ser e agir” justifica as personagens e seus destinos. Ou seja, há muito de espiritual, místico e obscuro no cinema de Iñárritu mediando sua relação com o mundo, como a torná-lo um porta-voz da redenção do ser humano que sofre num mundo impróprio a ele.

Agora, em Biutiful, Iñárritu se volta apenas para um personagem, Uxbal, um médium que vive de explorar o trabalho de imigrantes na Espanha e alugá-los para o mercado negro e a construção civil. A linearidade e as opções de encenação acompanhando este protagonista pelos espaços – em oposição ao fragmentário e épico de seus outros filmes – permitiriam explorar as contradições de uma personagem que não é nem vilão nem mocinho e se vê num jogo sócio-econômico exploratório, sugerindo um conteúdo político. Eis a questão: abandonar aquela política cósmica não significou uma profundidade estética nem uma tomada de consciência que tornasse o cinema de Iñárritu mais político, como ele talvez se venda e desejasse ser. Ele foge da política “do mundo” como o diabo foge da cruz. E ainda que as aparências digam o contrário, Biutiful sustenta a aproximação metafísica com o mundo, agora sob outros moldes.

O subterfúgio é a performance de Javier Bardem: se sua qualidade nos permite chegar às estranhas das questões internas de Uxbal e ver a degradação física do personagem ao longo da história, essa mediação da performance impede em grande parte que as relações dele com seu universo se aprofundem. Iñárritu se abre para as motivações de Uxbal e se fecha para o resto: o protagonista está morrendo e precisa acertar contas com esse mundo (mais uma vez a metafísica). Uxbal vira um representante do mundo via procuração do diretor. E com sua trajetória cai-se no chavão do bom selvagem: Uxbal é um homem bom em essência, corrompido pela sociedade que exige dele a subsistência para si e para os filhos. Sua mentora (outra médium) aparece para reforçar essa idéia de bondade ontológica não apenas de Uxbal, mas do ser humano, num mundo que lhe é hostil. É por isso que Uxbal deve acertar contas: purificar-se, reencontrar seu estado de bondade, não deixar as pontas soltas de um mundo material. O humano é substituído pelo humanitário.

No fim das contas, há uma recompensa para o acerto com “esse mundo”, o que deixa claro que se mudou a forma de aproximação do cinema de Iñárritu com o mundo por uma mudança formal e estética em algum nível, sua muleta metafísica continua firme e forte.

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