A Rede Social

Mark Zuckerberg é talvez o primeiro mito do novo século. Não digo isso por causa da internet em si, pois aí Obama e Lady, por exemplo, poderiam tomar seu lugar, mas pela forma: Mark Zuckerberg é um mito, mas não é ninguém. Está repleto de valor simbólico, como um representante de uma geração ou de seus ideais, mas completamente esvaziado de simbologias e idéias. Zuckerberg, como mito contemporâneo, representa algo que é pura representação (o mundo virtual) e, por isso paradoxalmente, existe, mas no fundo não existe. Não é pop star nem um representante do poder: é um líder sem causa.

O mérito de A Rede Social – e me faz pensar que é o melhor filme de David Fincher – é a tentativa (bem sucedida) de representar esse mito à maneira de seu tempo, buscando uma forma que possa lidar satisfatoriamente com a novidade do mito.

Daí que surgem alguns apontamentos:

$1. A espinha dorsal do filme. Ela é fragmentada, baseada numa espécie de “ouvi dizer”, afastando-se do ponto de vista objetivo para criar um ponto de vista caleidoscópico (outro aparente paradoxo do século XXI). Não se está diante de um personagem se abrindo diante da câmera, mas sim de investigação pelas histórias que se contam sobre o personagem. Há momentos em que a câmera de Fincher se posiciona com Zuckerberg, evidente, mas na maior parte do tempo se vê como uma não-testemunha. É uma narrativa de narrativas: flui, avança, adentra pelos meandros da história, porém sempre se bate de frente com novas portas a serem abertas. A montagem interrompe antes do clímax, mas não para criar um anticlímax e sim para retardá-lo até o ponto de se tornar insuportável. Baseia-se numa espécie de não-linearidade do mundo virtual, onde o diz-que-me-diz cria um viral. Daí ser um filme interessantíssimo, não baseado na virtuose técnica, mas na tentativa de lidar com uma superestrutura que arrebata uma estrutura de narrativa virtual.

$2. Dois movimentos. Essa estrutura viral faz dois movimentos. O primeiro é do particular para o global: como uma série de encontros (e desencontros) levam as pequenas ações dos homens a grandes feitos. Afinal, de todos os envolvidos no processo de criação do Facebook, o único que aparentemente é um gênio-heróico capaz de realizar tudo é Zuckerberg. Mesmo assim, ele não é isso e não criou a roda sozinho; há uma inabilidade nesse gênio que cria um curto-circuito. Isso move o filme. Os desencontros de todo o processo de criação do Facebook e o obscurantismo de seu relato levam à questão mais geral do filme: quem, de fato, criou o Facebook? Mas há também o segundo movimento que vai do geral ao particular: a partir do diz-que-me-diz, das ações do protagonista e como ele se relaciona com os coadjuvantes, o filme tenta entrar na identidade de Zuckerberg. Eis a segunda grande questão correndo em paralelo: quem é Mark Zuckerberg?

$3. A esperteza da escolha do elenco é saborosa. A aposta no elenco é em trazer as figuras dos atores para deixar o jogo dos personagens mais complexo. Primeiro Jesse Eisenberg, cujo misto de bobalhão, inteligente e inábil, cria algo interessante. Quem viu alguns poucos vídeos na internet do verdadeiro Mark Zuckerberg percebe a dessemelhança: O Zuckerberg-real dá a impressão de ser um bobalhão-sacana se fazendo de cool; o Zuckerberg-personagem é um enigma. Eisenberg responde bem, cria um protagonista que alterna tons de voz, quantidade de palavras, sentimentos nobres com ressentimentos. Sua figura frágil e introspectiva leva o espectador a questionar-se. Por exemplo, a cena da audição em que Zuckerberg está fazendo pouco caso do falatório, responde monossilabicamente até o momento o qual se exalta e grita ser o único capaz de realizar o Facebook. Afinal, Zuckerberg (o personagem que remete ao homem-mito) é um moleque gênio inábil ou um safado genial? Há ainda a malandragem no personagem de Sean Parker cuja ideologia basicamente é “a vingança dos nerds”, portanto o mais ressentido de todos. Ele é interpretado por Justin Timberlake, talvez o mais cool dos pop stars da primeiro década do século XXI. O jogo de aparências se complica, pois o fascínio que Parker exerce em Zuckerberg é similar ao que a figura de Timberlake faz com o espectador. Mas suas ações são as mais claramente discutíveis. Assim, Fincher escolhe com esperteza todo o elenco, pensando na imagem que os atores podem projetar nas personagens e como isso ressoa no espectador. Já na aparência os personagens são complexos.

$4. O impasse. Todas essas construções se alinham, aparentemente, em direção a responder às duas questões principais do filme (Facebook e Zuckerberg). Mas fica um impasse: a estrutura fragmentada, o diz-que-me-diz, as aparências, a mitologia em volta de todo o processo conspiram para que as perguntas fiquem em aberto. Há a impossibilidade de esgotá-las. E a pergunta quem é Mark Zuckerberg? é a mais misteriosa. Parece pecado um filme que se proponha a retratar um mito não consiga chegar nele. Mas esse impasse diz muito e aí voltamos ao começo do texto. Talvez Zuckerberg seja um mito pela a facilidade com que as narrativas virtuais criam fenômenos. Se a internet cria fenômenos como quem realiza desejos, sua dificuldade, pelo menos até agora, está em desfazê-las. A virtualidade da internet cria novas experiências de narrar e seus próprios heróis e mitos ontologicamente ligados a essas novas formas. Por mais que o cinema tente emular o efeito da rede, ele trabalha, no fundo, com as coisas do mundo. Talvez a ironia que torna A Rede Social prazeroso é a consciência desse impasse e tratar o tema com o humor de saber que o jogo está perdido logo de saída. É, quem sabe, o primeiro filme a entender estruturalmente as questões de inadequação da narrativa cinematográfica quando o assunto é internet: a internet é virtual, o cinema material. Como resolver esse impasse?

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