O Lado Negro da Força

Ano passado num encontro na Galeria Olido com o “guru de roteiristas” Robert McKee, ele era categórico em dizer que profundidade em dramaturgia é contradição. Estou com ele, mas vou um pouco além: os bons filmes tem (ou parecem ter) alguma dose de contradições. Na zona de cinza, o material do cinema se articula e ganha vida.

É por isso que não suporto os filmes de Aronofsky. Cisne Negro entra na galeria dos seus não-filmes. A história é simples: a descoberta de uma bailarina de seu lado sombrio que a fará ir para além da técnica e, com isso, representar os papéis antagônicos principais em O Lago dos Cisnes. Com essa personagem forte, os bons atores, os conflitos existenciais, Nova York e a música de Tchaikovsky possivelmente sairiam trocentos filmes mais interessantes que Cisne Negro (com um pouco menos, Michael Powell e Emeric Pressburger fizeram de Os Sapatinhos Vermelhos um dos melhores filmes da história sobre o espetáculo e o palco).

A grande questão é a profundidade da personagem, a descoberta de seu “lado negro” é central. Porém, não há o mínimo cuidado em dosar a caminhada ou dar ritmo ao jogo entre a passagem de cisne branco a cisne negro. Aronofsky joga tudo na tela de lambuja disfarçado sob a égide do “artístico”. Exemplo: o jogo de espelhos. Boa sacada até. Porém, sem dosagem, depuração vira um procedimento pretensioso de materialização das idéias do diretor na encenação. Depois de um tempo, os jogos de reflexão ficam anestesiados e não trazem nada de novo até o ponto de dizer “chega!”. O que se faz com a música é uma tortura, com os aumentos de intensidade para causar sustos ao estilo de filme de terror adolescente. E nem mesmo a dança, filmada de dentro, parece brilhar – fica como um acessório de luxo.

O filme é realizado à mão pesada, repetindo a mesma idéia à exaustão, o que reflete uma característica marcante do (ok, licença poética) estilo Aronofsky: o exagero. Não um exagero dionisíaco como num Fassbinder, muito menos o exagero cínico de Godard ou o demiurgo de Herzog. É um exagero em forma bruta: sai das personagens como uma tentativa materializar sua psicologia e cai num jogo de idéias que à primeira vista se confunde com um expressionismo kitsch. Porém é tão rasteiro e insensível, próprio da hipocrisia dos pretensiosos, que ultrapassa o kitsch e vira só exagero, assim, ríspido e errado. Como um carro desgovernado. Mas parece de bom gosto (o carro é uma Maseratti).

Não me surpreende. Pi é um exercício juvenil em busca de criar para si um “estilo” (ó ele aí de novo), repetido em Réquiem para um Sonho, uma bobagem travestida de filme de zeitgeist: atingiu seu público com essa história de mostrar jovens alienados e sem rumo usando drogas a qualquer custo, o que satisfez a meninada, que se acha retratada como transgressores (o que não são), e fez a alegria dos adultos que agora tinham certeza de que essa juventude não ia tomar o lugar deles; Fonte da Vida é um filme de idéias imaterializáveis, o que nunca poderia dar certo; e O Lutador é o mais próximo daquilo que Aronofsky fez de um filme, mas dentro de sua secura e sujeira há ainda esse resquício de exagero de olhar – penso principalmente numa cena meio jogada na qual o personagem de Mickey Rourke anda pelos corredores do açougue e o som ambiente vai copiosamente se tornando o som de uma torcida e também em como muitas vezes o procedimento (seguir do ator) parece aprisionar o olhar. Aronofsky parece um realizador que é incapaz de pensar em detalhes: só imagina o todo, a camada principal e seus jogos visuais se dão sempre nessa crosta da imagem, de maneira abrupta. É geralmente um pulo do branco pro preto e vice-versa. Retomando: Cisne Negro é um filme de idéias: as construções dramáticas e suas soluções de encenação visam materializar as idéias sobre essa bailarina que precisa descobrir em si uma pulsão para além da técnica, que no filme está alinhada a uma liberação sexual que soa como psicanálise barata. O movimento talvez fosse o inverso: o tour de force da bailarina deveria revelar o lado negro da força.

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1 comentário
  1. Ewaldy Marengo disse:

    Cara, sempre gostei dos filmes dele por serem exatamente exagerados. Como você disse, chega a anestesiar, chega uma hora que você não liga mais para o que ele quer passar.
    E aí que está o que eu gosto. Ele tenta te chocar, e te anestesia, aí ele (em todos os filmes dele) parece tentar deixar ainda mais forte. Só que o espectador já não estava ligando mesmo, não vai ligar agora. É quase como se ele tentasse mostrar alguma situação “marcante” mas onde já não existe mais emoção alguma na narrativa.

    Sim, estranho. Mas é justamente do que eu gosto.

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