Um Lugar Qualquer

Li algumas aproximações de Um Lugar Qualquer, novo filme de Sofia Coppola, com seu segundo filme, Encontros e Desencontros. Na verdade, tirando que tanto Johnny Marco (Stephen Dorff) quanto Bob Harris (Bill Murray) são atores e vivem num hotel, os filmes não tem qualquer semelhança.

Um Lugar Qualquer, em sua essência, está mais próximo de Maria Antonieta. Os dois filmes estão preocupados em ocupar um espaço de transição na vida dos protagonistas marcado pela futilidade e pelo vazio. Enquanto em Maria Antonieta este vazio é preenchido pela extravagância, libertinagem e descaso com o resto do mundo, mandando às favas a realidade, aqui Marco o interioriza, entra num estado depressivo e apático regado a sexo sem afeto, solidão e o lar de aluguel, se escondendo do mundo. Às tantas no filme sua filha vem para iluminá-lo sobre a solução: o círculo vicioso do astro solitário precisa ser quebrado.

A grande peculiaridade de Um Lugar Qualquer dentro da obra de Sofia Coppola é seu lado simbólico. A diretora se propõe mais que em seus outros filmes a criar situações simbólicas que materializem o universo de Johnny Marco: o carro como um movimento que nunca se concretiza (na primeira cena, ele corre em círculos no deserto até que para e procura para onde ir; sua libertação está ligada ao abandono do carro), a piscina resplandecente e vazia, lugar onde Marco bóia à deriva; o hotel como um castelo onde esse vazio o atinge, mas também como proteção de enfrentar o mundo; o esvaziamento do sexo como troca de afeto, tornando-se convenção. É impossível deixar de pensar numa construção de um mundo da fantasia do vazio.

Daí que se Coppola ganha em simbolismo perde o que talvez seja seu grande trunfo em Encontros e Desencontros, seu melhor filme: captar um evento, um momento único. Não que não existam bons momentos em Um Lugar Qualquer, mas a intimidade sincera entre a câmera, Bob e Charlotte perdidos em Tóquio é substituída pela mediação simbólica: Coppola prefere criar uma imagem simbolizando o estado do protagonista que expô-lo ao perigo. A espontaneidade da encenação que dava vida a Encontros e Desencontros cede lugar ao poder de fogo da diretora.

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