Poesia

Poesia lembra um cinema brasileiro cuja política do olhar cria uma aproximação carinhosa, afetiva e profundamente respeitosa da câmera em relação ao protagonista (O Céu de Suely, Cinema Aspirinas e Urubus, e toda uma onda de curtas “femininos”, “idosos” e “infantis”). É uma economia de afeto que muitas vezes mantém uma distância respeitosa e segura. A armadilha é ficar num terreno seguro de encenação que não avança para as camadas mais profundas do personagem deixando o filme vagar numa monotonia assustadoramente “do bem”.

Lee Chang-Dong cai na armadilha. Tudo é assombrosamente “do bem”: a protagonista, sua trajetória, seus gestos, suas ações. Ela quer proteger o neto, quer aprender poesia. O resto é “do mal”. Esse “resto” é que daria cor ao universo de Dong: o inspetor machista, o chefe “vegetal” que a assedia, os pais ricos tentando abafar o estupro da colega por seus filhos. Acontece que Poesia é filme preguiçoso e toda essa cor é tratada meio que no piloto automático. Como a câmera, que parece sempre estar onde é mais fácil e não onde é melhor. Chang-Dong não cria um jogo de “filme poético” que poderia tornar-se procedimento, é verdade. Mas no fundo trata-se de filmar o humano para daí tirar uma verdade, essa sim intensamente poética. Por não fazer – ou não conseguir isso – Poesia estrangula-se.

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