Modos e Esquemas

Na revista Taturana de inverno de 2010, texto de Rodrigo Grota sobre Ex-Isto de Cao Guimarães:

“Esse modo de produção, que reuniu uma equipe de 6 pessoas a filmar por 13 dias em Alagoas, no Amapá, em Recife e em Brasília, é claramente a melhor solução de um cinema que se quer independente no Brasil. O cineasta chinês Jia Zhang-ke, em entrevista à revista Cinética há alguns anos, dizia que não se pode mais dissociar a estética de um filme de sua logística de produção. Filmes emblemáticos como Limite (1931), de Mário Peixoto, e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, foram feitos por equipes reduzidas. O cinema mais interessante que se faz no Brasil atualmente, que inclui produções de Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Rio Grande do Sul, parte de grupos de amigos que conversam entre si e filmam, sobretudo, pelo prazer de filmar.”

Não é a primeira vez que leio um elogio a equipes reduzidas e ao cinema de grupo na Taturana. Também, parece, há uma tendências elogiosa a equipes reduzidas e (toma-se por) menos profissionais em outros lugares (acho que li o Inácio falando sobre isso outro dia). O importante não é esse tipo de defesa ou não, mas evitar automatismos falaciosos.

Então, partindo deste parágrafo do Grota, vamos por partes:

– Um método de produção reduzido parece ser um bom negócio os para “independentes” no Brasil, admito. Contudo, há um curto-circuito: falar que é “claramente a melhor solução” é pensar apenas na produção e não em como esse filme será visto. Afinal, onde estão esses “filmes independentes”? Daí que se os filmes não são vistos quer dizer que não adianta nada. Não falo em sucessos de público, mas de exibição mesmo, não em passar em Tiradentes, no Festival do Rio, na Mostra e pronto. Mais uma vez estamos pensando apenas em filmar, não em exibir. Os realizadores ficam satisfeitos em produzir, mas essa cinematografia não existe. Isso é perigoso. Cinema não é filmagem, é exibição (lembrem-se que o marco histórico do cinema é uma projeção pública paga).

– Não se pode dissociar a estética de um filme de sua logística de produção: isso é uma faca de dois legumes. É legítimo pensar assim, mas no fundo não é uma associação automática. Existem muitos fatores que interferem no resultado artístico de um filme. A logística influi muito, mas o que decide são os talentos envolvidos no trabalho. Um filme feito com oitenta pessoas talentosas tem muita chance de ser melhor que um filme feito por seis idiotas. Por outro lado, um Karim Ainouz vale muito mais que oitenta Paulos Thiagos. Ainda assim, não é garantia de nada, mas é o que conta: talento. Cinema é um pouco como o futebol: sem talento não se ganha jogo. Na verdade, a estética do filme é indissociável dos talentos envolvidos, isso sim é fundamental.

– Peraí: Limite e Deus e o Diabo são dois contextos completamente diferentes entre si e em relação a hoje. Macunaíma foi feito com equipe normal, por outro lado, Eles Não Usam Black-Tie também e são notáveis. Apelou perdeu.

– O grupo e o prazer de filmar: eu sou categórico com isso. Acho o maior mito da produção cinematográfica essa história de grupo que se conversa e amigos e clima e prazer de filmar. Isso não leva necessariamente a um grande filme. Ajuda, mas não leva necessariamente a nada. É só um dado histórico. Em qualquer arte isso é falacioso e temos exemplos monumentais de obras-primas feitas sob tensão. O caso mais evidente é o White Album dos Beatles: os caras não se falavam, não tocavam juntos, brigavam toda vez que tinham que tomar uma decisão. No fim das contas, saiu uma obra-prima na qual fica muito claro o racha do grupo. Apocalipse Now é outro exemplo de filme saído do “desprazer de filmar”. A questão fundamental, mais uma vez, é talento. Um grupo de cineastas pode conversar e amar o cinema o quanto quiser. Isso não quer dizer uma produção interessante vinda desses caras. Se esta produção a qual Rodrigo se refere é feita por grupos de cineastas amigos que conversam e trocam idéias sobre cinema, isso é apenas um detalhe, uma nota de rodapé. No fundo, isso não é fator relevante. Filmar pelo prazer de filmar fica bonito nas revistas e pega bem para os cineastas. Esse prazer pela profissão tem que existir não interessa o que se faça, principalmente em arte. Mas no fundo o que importa para o resultado estético de uma obra é talento e seu trabalho.

Tudo isso para reafirmar minha posição de que não se pode acreditar em Papai Noel. Daqui a pouco vai ter muita gente defendendo que determinada produção tem interesse porque é feita por amigos com equipes de no máximo 10 pessoas. Forma-se um mito, um esquema. O cinema não aceita absolutos. Não adianta inventar história: prazer de filmar, grupos ideológicos, equipes reduzidas, tudo é lindo no papel. O que interessa é filme, a obra final acabada. Não adianta criar esquemas para explicar como se chega a um bom filme, porque isso pode acontecer de muitas, muitas maneiras. Novamente o futebol: não interessa o esquema tático, nem se a concentração vai ser fechada ou aberta, mas sim quem são os jogadores e a qualidade de seu trabalho. O que deveria interessar é como descobrir talentos e fazê-los produzir, não importa como. Porque o que interessa é talento.

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