O Discurso do Rei

O Discurdo do Rei não tem potencial para ofender ninguém. Taí um resumo de suas qualidades e defeitos.

É um filme inteiramente correto, numa tradição de cinema industrial tão antiga quanto conhecida: uma história de superação, um roteiro bem ajambrado, um diretor com domínio narrativo, bons atores e rigor técnico. Uma fórmula de qualidade que, se seguida à risca, não tem erro.

Eis O Discurso do Rei: um filme sem erro. Ao contrário, deu excessivamente certo, tão certo que deixa claro seus procedimentos. A narrativa fica exposta em suas articulações a ponto de tornar possível prever o próximo passo. O personagem de Colin Firth é um nobre solitário com um obstáculo gigante que só será transposto com a ajuda de um honesto homem comum cujo sonho irrealizado é arrefecido pela ajuda que prestará ao protagonista. A gagueira do rei é combatida com muito treino físico, mas principalmente com a amizade entre Firth e Rush e os valores que desta aflora. No surprises.

Tom Hooper é claramente um realizador com domínio da linguagem. Mostra, às vezes, algumas idéias plásticas, como seus planos próximos que deixam o personagem de cantinho do quadro, saídos mais das artes plásticas que das regras clássicas de enquadramento do cinema, e um uso ou outro mais interessante das cores dos cenários. No geral, parece que o retrato da nobreza emperra a narrativa, como se o assunto não permitisse pontas soltas ou ambigüidades radicais. Fica tudo no plano do retrato frio. Em Maldito Futebol Clube, seu filme anterior, talvez por se tratar de um universo plebeu (ou será o roteiro de Peter Morgan? Difícil saber…) a narrativa é mais solta e o filme, talvez por isso, chega mais longe, fazendo uma aproximação crítica de seu protagonista sem deixar de torná-lo fascinante. O Brian Clough de Michael Sheen é mais interessante que O rei George de Colin Firth. O protagonista de O Discurso do Rei é um personagem bom na medida em que é exótico (um nobre com gagueira) e só. O terapeuta de Rush tem muito mais sabor e talvez por isso o único momento mais “arriscado” do filme seja a sugestão de que o terapeuta esteja fascinado com a possibilidade de ser conselheiro do futuro rei (alimentado por sua fascinação pelas peças de Shakespeare, as quais sabe de cor) e por isso instigue George a assumir o trono.

Mas para além da fórmula de qualidade, O Discurso do Rei é só um filme correto. Excessivamente correto. E por isso, não deve ofender ninguém.

Anúncios
1 comentário
  1. Tenho te lido desde que descobri o blogue, através da Cinética. Estou acompanhando desde então suas reflexões, que muito me alegram, pois é sempre bom conhecer novos olhares interessados e interessantes nessa rede tão grande de ideias desbaratinadas.

    Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: