Em um Mundo Melhor

O homem branco leva a civilização para os bárbaros: consultas médicas, operações, remédios, bola de futebol para as crianças.

Quando o homem branco volta para sua terra, ele encontra os verdadeiros problemas: questões sentimentais, o rompimento da família, as relações do filho na escola, os idiotas (bárbaros de outra ordem) que povoam o mundo.

Susanne Bier parte de dois cosmos para compor sua história: o campo hospitalar na África, o qual Anton dirige, e a história de sua família na Europa. Há uma intertextualidade entre os dois mundos já que o motivo da violência perpassa-as, como se o conflito violento que envolve o filho de Anton fosse copie conforme reduzida da violência na África. Ou seja, é uma intertextualidade que ignora as questões políticas locais e prefere se reduzir à dicotomia civilização-barbárie.

Com isso, Bier parece cristalizar seu filme num tipo de obra cuja classificação corrente no meio crítico é “filme humanitário”. De fato, Em um Mundo Melhor guarda algumas semelhanças com O Jardineiro Fiel. Há a dicotomia “África como lugar de conflito o qual o europeu se propõe a resolver”/“as questões particulares do protagonista”. Há ainda uma vontade de embelezar tudo. Tanto o filme de Bier quanto o de Meirelles estão repletos de belíssimos planos de passagem, paisagens agradavelmente bem filmadas, belos planos de rostos olhando o vazio e refletindo sobre seus problemas.

Porém, desconfio da classificação pela diferença básica entre os filmes: O Jardineiro Fiel é um thriller, Em um Mundo Melhor, um melodrama. Isso traz divergências substanciais. O gênero do primeiro justifica em certa medida sua forma frenética, sua incansável câmera na mão e sua montagem que requer ritmo a custo de cortar os planos o tempo inteiro sem respiro. É um filme que não se deixa observar as coisas que passam em frente à câmera porque interessa mais os pontos de virada, surpresas e resoluções do roteiro que qualquer outra coisa. Já Em um Mundo Melhor requer o drama, o personagem, a interação. E aí o filme fraqueja: as grandes cenas do filme de Bier são enfraquecidas pelo corte, pelo impulso de dar ritmo onde na verdade era necessário deixar fluir, pela câmera que não descansa e não olha, pois não para no lugar. É o caso, por exemplo, da cena em que Christian vai visitar Elias no hospital e a mãe deste é hostil com ele. Para um filme que a princípio é de outra ordem se comparado a O Jardineiro Fiel, o filme cai nos mesmos esquemas de forma dele. Só que lá, o thriller disfarça as fraquezas no tratamento político do mundo (o que não diminui o problema, só o joga para debaixo do tapete). Aqui o resultado é desastroso.

Não chega a surpreender que o título nos Estados Unidos e no Brasil seja Em um Mundo Melhor, quase um salmo se comparado a Vingança, o título original na Dinamarca. Pois o verdadeiro motivo do filme é o drama familiar de Anton, cujo filho Elias é influenciado por seu amigo Christian a achar que a violência é o melhor remédio contra a estupidez das pessoas que usam de violência contra eles. Christian tem um desejo de vingança contido assim como o povoado mostrado na África tem para com o chefão da bandidagem local. Como o drama cai no artificialismo a partir das escolhas de montagem e abordagem frenética da câmera que não consegue compor uma narrativa e momentos dramáticos fortes, fica mais palpável a canhestra ligação Europa-África. Daí essa escolha edificante de título internacional.

Pois, quando o homem branco resolve seus problemas, ele faz um mundo melhor para a barbárie.

Anúncios
1 comentário
  1. Pedro Henrique Ferreira disse:

    Texto bacana, Raul. Nada pior que esta classe atual de “humanitários” que acha que os problemas são os mesmos em todos os lugares.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: