Seja Família, Seja Herói

Desconfio do termo cinema publicitário cunhado há alguns anos e usado por parte da crítica para classificar alguns filmes da virada dos anos 90 para os 2000 realizados por diretores oriundos do mercado publicitário e suas produtoras (O2 e Conspiração à frente). Alguns usaram com exagero.

Mas, se existe algo que se aproxime desse cinema publicitário, eu diria que é VIPs. Não por causa dos inúmeros merchandisings perfilados ao longo da trama, pois isso é parte do negócio do cinema comercial há tempos em qualquer parte do mundo; muito menos porque venda um produto, pois duvido que alguém vá vê-lo pensando na possibilidade de comprar um avião (pelo menos não no meu caso e de meus vinte ou trinta leitores). VIPs poderia receber esse rótulo porque tenta incutir no espectador uma idéia – não interessa de verdadeira ou falsa agora – utilizando-se de procedimentos de persuasão mais próximos da pornografia que da narrativa. A publicidade, meus caros, é a irmã comportada da pornografia: faz o espectador imaginar-se numa situação de prazer efêmero, momentâneo, passageiro. A diferença está em que se o fim da publicidade é o consumo; o da pornografia, a excitação sexual.

A idéia de VIPs: o protagonista, um golpista que assume a identidade do filho do dono de uma empresa de aviação para freqüentar a alta sociedade, é um personagem com sérios problemas psicológicos. Para prová-la, desenrolam-se uma série de associações simples e (pornograficamente?) escancaradas: avião com subir na vida, vôo com sonho, paternidade com comando e, o principal, família desintegrada com fratura da personalidade.

O método: superexposição dos elementos associados até o êxtase final. No início avião, avião, avião. Depois, problemas de identidade, problemas de identidade. No terceiro ato, loucura, loucura, loucura. Por fim, revelação do porque a partir de um objeto recorrente no filme (ouvi Rosebud?), o que fará o espectador comprar a idéia, suas causas, conseqüências e soluções.

VIPs é mais um filme recente cuja marginalidade do personagem é um trauma e não uma trajetória – é sintoma da doença e não um estado complexo. Ele é apenas alguém com problemas psicológicos resultantes da falta de um pai. Mas este personagem quer algo: uma sublimação a partir do prazer. Ele se joga no mundo atrás de satisfazer seus desejos, porém esse prazer é proibido em VIPs, interrompido sempre pouco antes do regozijo para lembrar a idéia inicial: essa aventura é um desvio, uma malária, uma fratura. Por isso não há espírito de aventura e subversão no filme. Pois o produto aqui não é o prazer do proibido, mas uma idéia de personalidade que só pode solidificar com a família completa, com uma voz de comando, com a figura do exemplo. VIPs é um filme para a família sentir a importância da união, para impedir que os pais com problemas se separem, que homens parem de viajar a trabalho para ganhar mais dinheiro e que as mulheres não sejam promiscuas no carnaval. VIPs vende um produto, a família, e não a busca pelo prazer pessoal. Mostra como seu produto é importante atacando a qualidade do concorrente. O prazer pleno não é possível em VIPs.

O filme é, assim, algo esquizofrênico: o protagonista lutando contra o filme e este impedindo o personagem de mostrar sua força, um misto da busca desse prazer pleno com a fuga de um destino que o persegue. Porém, Toniko Melo filma com um rolo compressor. A encenação é mero acessório, se é que existe aqui: a idéia pronta é sub-repticiamente escancarada nas cenas. Avião, avião, avião. Falta de pai, falta de pai, falta de pai. Louco, louco, louco. Rosebud mequetrefe.

É a negação da narrativa cinematográfica.

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5 comentários
  1. Jasmin disse:

    Bravo para o antepenúltimo (que é meio o penúltimo) parágrafo.

  2. Acho que outra diferença fundamental entre a pornografia e a publicidade é que a pornografia cumpre a promessa que faz e recompensa o desejo. A publicidade não pode cumprir, apenas prometer, senão o consumo perderia o sentido.
    (“O prazer passa, mas o desejo volta sempre, e é o alimento do amor”, diz-se naquele filme que ia se chamar “Filme pornográfico”.)

    Agora, não creio que seja um expediente publicitário o filme argumentar (ou tentar incutir) uma ideia. Isso é universal, e é uma consequência do desenvolvimento de pontos de vista. E os procedimentos de persuasão de um Terrence Malick, por exemplo, também são mais próximos de uma linguagem publicitária do que de algo que se possa definir como narrativa.

    Enfim, me ressenti da associação entre a bela, dura e pura pornografia com essa imundície chamada publicidade.

    PS: Já saiu “VIPs” em DVD? Queria editar todas as referências ao Rosebud e assistir, desconfio que melhoraria 200%.

    • Raul Arthuso disse:

      cara, tem uma coisa que é tom: a casa do menino é toda bem construída, cheia de aeromodelismos, limpa, colorida, agradável, cheia de símbolos que remetem ao avião comercial (e não a qualquer avião), aos sonho de voar. É exatamente como a propaganda que vc colocou aí: quer parecer uma narrativa de duplo sentido, mas no fim das contas não é nada. “Vende” uma idéia. Qual? A família burguesa. A culpa de tudo é da mãe que transou com dois caras no carnaval e deixou o filho sem pai. Isso ele fala em cinco minutos. Todo o resto é um filme de nada travestido de filme de golpe, de aventura, de loucura.
      O Malick (não sei o Tree of Life, pois tudo pode mudar) faz aqueles planos belíssimos, mas no mínimo está interessados na plasticidade da coisa, numa certa formação do mundo (no Badlands, o lugar parece alo inabitado, em formação), existe uma idéia quase platônica das “formas” em oposição às “coisas”. Não é packshot.

    • Raul Arthuso disse:

      Aliás, segundo sua definição, a publicidade é que nem o cristianismo.

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