Notas #2

– Ir ao circuito comercial está se tornando uma aventura perigosa, mas é um exercício necessário. Mas os filmes precisam ajudar. O que acontece com os blockbusters? Nunca fui muito de criticar isso, mas é que neste mês o negócio ficou feio. Ainda que eu quisesse ver Thor, posso viver sem ele. Rio, Piratas do Caribe 4(!), Velozes e Furiosos 5 (!!!), nenhum me desperta o menor interesse. O único que talvez me faça levantar da cadeira é Se Beber, Não Case 2, ainda que o primeiro seja mais interessante por sua estrutura narrativa que por ser engraçado mesmo (o que é quase um pecado para uma comédia). E pensar que a Pauline Kael reclamava do cinema comercial dos anos 70…

– Vários filmes brasileiros em cartaz. Deles não dá pra escapar. Destaque: a Sessão Vitrine, que vai exibir em circuito alguns filmes que rodaram os festivais brasileiros, mas dificilmente chegariam ao circuito comercial. Já passou Estrada para Ythaca, essa semana é exibido Um Lugar ao Sol, e ainda estão programados Chantal Akerman de Cá, Estrada Real da Cachaça e Pacific. O horário é bem ruim, mas vale a pena ver o cinema mais discutido no Brasil hoje. E principalmente, para a crítica, vale rever e reavaliar esses filmes longe do calor (e, muitas vezes, empolgação) dos festivais.

– Um filme pequeno visto que, surpreendentemente, foi lançado comercialmente é Bollywood Dream, de Beatriz Seigner. É um filme apenas simpático. Há uma tentativa de fazer um filme de gênero com poucos recursos, ainda que não funcione: é uma comédia, mas que não é engraçada. Como disse, é apenas simpática. Mas o principal é a questão da amizade, que perpassa o cinema brasileiro como um todo (quatro filmes recentemente em cartaz têm a amizade como um assunto importante). Aqui sua mecânica é o contrário de Estrada para Ythaca: as três protagonistas partem do grupo para chegar ao individual, começam como um corpo único e as diferenças se descobrem ao longo da trajetória. Cada uma delas descobre seu “destino” a partir do grupo. Essa passagem não é muito bem construída. De repente, elas brigam e percebem que seus sonhos são diferentes. Apesar disso, interessa pelo diálogo dessa mecânica da amizade.

– Outro filme que tem a amizade como interesse é Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, de Domingos Oliveira. A amizade é uma política, mais que tema central. É uma amizade alegre, de união de forças profissionais. Os únicos momentos em que todos estão juntos são os interlúdios, quando eles comentam os episódios do filme, se descontraem, agem como trupe artística. É nesse sentido, de trupe, que as relações éticas do grupo se estabelecem. Eles querem chegar numa verdade comum (o filme) e não fechar-se em si como célula de sobrevivência perante o mundo. É uma relação de amizade bem demarcada quanto a seus limites.

– O filme de Domingos lembra um pouco o filme de outro Oliveira, o Manoel. Singularidades de uma Rapariga Loura e Todo Mundo Tem Problemas Sexuais são filmes de velhice que se assemelham a uma traquinagem. Há, sobretudo, a alegria de estar no mundo.

– O filme mais bizarro em circuito: Ricky. Ozon superou-se: seus filmes pouco me dizem, mas este tem uma estranheza instigante. Está longe de ser um grande filme, mas pelo menos rende conversas no bar após a sessão. Uma fábula? Uma alegoria? Uma bobagem, apenas? Ozon poderia ser mais assim e menos O Amor em Cinco Tempos.

– Não falei nada do lançamento em circuito de Cópia Fiel porque muitas vezes não sei o que dizer sobre uma obra-prima.

Cópia Fiel é lynchiano. É clima, ritmo e discussão da representação. É o primo diurno de Estrada Perdida.

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