Meia-Noite em Paris

Que Woody Allen achou um jeito de financiar seus filmes e isso traz certos limites para seu cinema está claro. Não é questão de repetição como às vezes se lê. Pois não é a repetição de seus temas e procedimentos que dão força a Match Point, Vicky Cristina Barcelona e Tudo Pode Dar Certo?

O que acomete Meia-Noite em Paris, assim como alguns de seus filmes pós-Tiros na Broadway, é Allen parecer interessado em certo aspecto de seus filmes em detrimentos de outros. Surge então uma atitude preguiçosa: o que interessa, interessa de fato; o resto é só resto.

A leveza de seu novo filme vem do que é claramente mais bem cuidado no filme: os encontros do personagem de Owen Wilson com os artistas da Paris dos anos 20. Dalí, Hemingway, Fitzgerald, Buñuel, Picasso são gravuras de livro que saem da página. Allen brinca com a imagem do senso comum de seus ídolos (e a cena com Dalí, Buñuel e Man Ray é antológica) e os trabalha a partir desse clichê para continuarem inalcançáveis ao historicismo, como se nos fosse impossível esse encontro mágico. Isso acaba por reafirmar o lugar de cada coisa: eles lá no contexto deles, nós cá no nosso.

O problema é quando Allen aponta a câmera para o nosso tempo. Daí sai pouca coisa, parecendo, à maneira de seu personagem, desinteressante para ele, senão para admirar Paris (o que, convenhamos, é fácil). As cenas de Wilson com Rachel McAdams e sua família são os momentos mais preguiçosos do filme e raramente sai grande coisa (lembro apenas da cena em que o médico mede a pressão do pai de McAdams), lembrando o que acontece quase o tempo inteiro em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. E essa preguiça cansa.

Visto no Cinemark Pátio Paulista, Julho de 2011

Anúncios
5 comentários
  1. Eu diria que todos os personagens são bastante estereotípicos, inclusive as celebridades históricas. Mas tudo bem, porque o filme se assiste como se lê uma crônica. A superficialidade da personagem da Rachel McAdams chega a ter uma carga de descrição e verdade.

    • Raul Arthuso disse:

      A diferença entre as celebridades e a Rachel é que eles podem (e é possível que sejam) fruto da imaginação do Owen Wilson e daí sai sua graça.
      Não se pode ignorar que essa sua ficção seja bastante real ou pelo menos uma experiência transformadora.
      O problema é que o “mundo real” de Wilson é superficial e sem graça, mas não acho que seja uma oposição proposital e sim fruto de descuido de Allen.

      • Tem coisa mais superficial e sem graça que turistas em Paris? =P

  2. Raul Arthuso disse:

    Turistas no Rio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: