O Rei Leão

O Rei Leão não é a mesma coisa: lá se foram quase vinte anos e toda uma formação cinéfila. Por outro lado, O Rei Leão é talvez o último grande filme da Disney antes da Pixardependência e mantém seu lugar afetivo dentro da formação de muitas pessoas nascidas nos anos 80.

Então, entrar em contato com o filme tempos depois é também rever-se, rememorar o que despertava a atenção e a sensibilidade como espectador e, com o entendimento mais apurado, ver as fraquezas antes pouco evidentes e valorizar as verdadeiras forças do filme (que, nesse caso, não são poucas).

O Rei Leão, então, passa bem nessa revisão. É um filme que continua forte, apesar de seus claros anacronismos kitsch, marcantes das produções da Disney da época, como alguns comportamentos de câmera exagerados, e certa grandiloqüência dos diálogos, principalmente os de Mufasa, pai de Simba. Uma das forças do filme está em exatamente como consegue lidar bem com seus elementos para criar momentos musicais divertidos e também cenas de bastante intensidade dramática, como a cena em que Simba encontra Mufasa morto, tenta fazê-lo reagir e, após o insucesso, repousa sob sua pata.

O elemento que mais se mostra por inteiro na revisão é a estrutura do roteiro. A jornada do herói está de corpo presente no filme e a conexão com Guerra nas Estrelas não é exagerada: Simba é um parente próximo de Luke Skywalker, Nala lembra Léia, Timão e Pumba são versões antropomórficas de R2D2 e C3PO. E é interessante que Mufasa seja dublado na versão em inglês por James Earl Jones, o mesmo ator que fez a voz de Darth Vader – os dois pais nos respectivos filmes.

E assim como o filme de Lucas, O Rei Leão é um filme de aventura com uma trama familiar misturada, mas para falar, na verdade, de valores: honra, coragem, responsabilidade, maldade, perfídia, astúcia, honestidade. Afinal, é uma história de formação de um grande líder, um enredo tentando dar conta de questões universais, globais, em oposição ao particular, individual, à micro comunidade em voga hoje. Talvez esse seja o grande anacronismo do filme.

visto em DVD, Agosto de 2011

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2 comentários
  1. Olha, tenho um respeito muito grande por “O Corcunda de Notre Dame”, lançado em 1996 e, para mim, o último grande filme da Disney. Sei que ele não foi muito bem aceito, mas considero talvez o filme com a trama mais séria e adulta já feita pela Disney, apesar das canções (coisa da época, como você disse) aqui e ali. Mas a não ser em uma canção inútil (em que os gárgulas falam sobre Paris, creio), as músicas fazem parte da trama e carregam uma carga emocional muito forte (a cena em que Quasimodo canta “Heaven´s Light” contraponto com Frolo cantando “Hellfire” é de arrepiar).

    Enfim, quanto ao “Rei Leão”, é de fato bastante bom, embora também não o veja há muito tempo. Interessante a comparação com Star Wars, não tinha me ligado nisso. Mufasa seria o Imperador? Há também, creio, grande influência de Hamlet (o irmão que mata o Rei para assumir o trono e o jovem príncipe que vinga o pai). A cena inicial de “O Rei Leão” foi das coisas mais impressioantes que vi naquela década e sem dúvida marcou a vida de muita gente. Abraço.

    • Raul Arthuso disse:

      É João, a cena inicial é bem potente, tem um trabalho com os gestos e os movimentos de câmera muito parecidos com essa cena da morte do Mufasa.
      Na comparação com Star Wars, acho que o binômio Mufasa/Scar equivale ao Anakin/Darth Vader. São os únicos personagens masculinos entre os leões, representam o poder e a mudança de um estado de equilíbrio para um de desequilíbrio.
      Já tinha lido algo sobre o Hamlet, mas desconfio um pouco. Só exite na esfera do enredo do tio que mata o irmão para ficar com o trono. A trajetória do simba não é tão parecida com a do Hamlet se você olhar mais calmamente.
      Quanto aos filmes da Disney, eu também tenho respeito por A Nova Onda do Imperador. Acho divertido e kitsch na medida certa. Mas obra-prima, filme inesquecível, acho que o último foi o Rei Leão mesmo.

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