O Assassino da Furadeira

Não custa frisar: os grandes diretores são como os grandes dribladores – fazem que vão para um lado quando, na verdade, vão para o outro, deixando seus marcadores embasbacados pela beleza do lance. É o caso de Abel Ferrara em O Assassino da Furadeira.

A primeira imagem do filme: uma igreja e a imagem de Cristo crucificado tomando a atenção do protagonista. Porém, o filme não vai tratar de purificação, pecados, salvação e virtudes. O Assassino da Furadeira vai fundo na carne; é obra de sangue, sacrifício, impotência, dor e desejo.

Os retratados aqui são os marginalizados, os desprovidos, os “sem-cultura”, diferentes do assassino, um artista plástico, alguém a quem a sociedade credita um saber erudito. Como alerta a cartela inicial, este filme é para ser projetado com o som alto: é o fim dos anos 70 e o fervilhar da cultura punk nos principais centros urbanos, como a Nova York do filme. Os jovens tocam guitarra até alta madrugada e se vestem com farrapos; o assassino não mata com um revólver ou uma faca, mas com a furadeira – o barulho, o incômodo.

No fundo, O Assassino da Furadeira chama atenção para uma cidade invisível e uma gente que, por não ter voz ou não saber como dizer, acaba por não ter corpo. E, por isso, grita e faz barulho.

 

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