Ex Isto

Após a sessão de Ex Isto, último longa-metragem de cão Guimarães, me vieram à cabeça duas referências que, além de serem quase opostas entre si nas propostas, diferem muito do cerne da obra construía pelo cineasta mineiro: M. Night Shyamalan e o filme Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo.

O primeiro, se parece bizarro ao lado de Cao, é evocado por causa da cartela inicial de Ex Isto: “E se René Descartes viesse aos trópicos com Maurício de Nassau?” (a lembrança pode falhar quanto à exatidão das palavras). Pois se em Shyamalan o exercício da fábula parece um caminho para explorar os ícones, os símbolos, os mitos e seus efeitos, principalmente na vida comum das personagens, o pressuposto em Ex Isto não passa desse “e se?” interessado mais no extraordinário emergindo da imagem, pouco restando para a fábula e seus possíveis desdobramentos. Há uma idéia que independe desta fábula: o ser encarnado por João Miguel passará de um estado (cartesiano) para outro em direção à essência do ser (e puro do racionalismo que o afasta do espaço).

Daí que se o Descartes de João Miguel anda, observa, navega pelos espaços, ele é apenas um corpo jogado na imagem. Cao Guimarães está livre para mostrar sua habilidade pictórica com a câmera, mas cria um efeito que brilha aos olhos e satisfaz o intelecto em grande medida. Novamente Shyamalan: se as imagens do diretor americano dão força ao mitológico da fábula e aprofundam os encontros nesta trajetória, a sensação em Ex Isto é que as situações criadas para esse Descartes raramente saem do óbvio, como os momentos de João Miguel na feira observando, interagindo com a multidão na cidade e perdido num terminal de ônibus, procedimento que, variando de intensidade, se encontra em Mazzaropi e no Casseta & Planeta. Há fortes imagens, é inegável: a onda gigante que quase carrega o protagonista; a chuva que cria um belo efeito plástico; o rosto de João Miguel enlameado na praia. Porém, a fraqueza dos encontros deixa uma sensação de que grande parte das idéias visuais do filme não passam de efeito (e penso aqui num momento não plástico: a cena em que João Miguel dança com uma banda de música popular que toca na praça).

É interessante notar (talvez por isso tudo) em como a personagem em si significa pouco no filme. Ele está o tempo inteiro na tela, mas não fosse a indicação no início de que se trata de Descartes, o personagem seria apenas um homem deslocado no tempo, uma figura que transita, causaria um estranhamento, mas seria um personagem sem qualquer característica, pois aquela que mais importa vem com o Descartes-histórico e não é construída. Sabe-se quem é essa personagem, mas ela nunca existe de fato. O personagem de Irandhir Santos em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é o extremo oposto: não está nunca em quadro, mas sua presença é intensa; conhece-se aquela personagem pelo que a câmera mostra, pela montagem e a relação disso tudo com as entonações e o conteúdo da narração. É todo existência.

Não se trata de uma valoração, mas de entender modos de se aproximar do mundo. Em Ex Isto, o poder das idéias de impossibilidade do pensamento cartesiano e da substituição de um se inteiro racionalista por um sensorial cria um efeito. A idéia está lá, mas não passa de proposição. E só.

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2 comentários
  1. Bruna Cataldi disse:

    Gostaria muito de ver esse filme. Como posso assisti-lo?
    Obrigada.

  2. Raul Arthuso disse:

    Olha, o outro longa do Cao Guimarães saiu em DVD pela Lume Filmes. Porém, Ex-Isto não tem previsão. Tem que ficar esperta com alguma exibição especial.

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