Oma

Numa dessas conversas à toa em mesa de bar com pessoas do cinema, uma amiga, admiradora do novo filme de Michael Wahrmann, comparava Oma a Santiago de João Moreira Salles. Há uma diferença básica entre os dois filmes – o que não é demérito a nenhum deles.

Santiago está fundamentalmente se reportando ao filme inacabado pelo narrador-personagem no início dos anos 90. Olhando o material anos depois, esse narrador-personagem percebe sua relação com o mordomo da família que aflora no material bruto e que impediu, naquele momento, a concretização do filme. Há, nesse sentido, um mea culpa da relação conflituosa a qual ele não foi capaz de atentar na época. Mas há de fato o filme não-finalizado como um entreposto que impulsionou a revisão de si mesmo proposta pelo narrador-personagem.

Em Oma, esse entreposto não existe, ou melhor, o olhar do narrador é diferente. Pois ainda que Wahrmann seja personagem e narrador (ainda que não se utilize da voz over), ele não é narrador-personagem. São como duas entidades diferentes: o Wahrmann que aparece na tela e tenta se aproximar da avó usando a câmera como modo de abordagem; e o Wahrmann que olha o material anos depois e vê na relação um impasse.

Esse distanciamento é fundamental para entender a força de Oma, pois é esse gesto de trazer o impasse entre o personagem e sua avó como eixo de organização que cria a diferença entre Oma e grande parte dos filmes abordando a família: o narrador não está afundado no afeto. O distanciamento impressionante do narrador olhar para avó e para si mesmo com bastante dureza, sem ceder a sentimentalismo, jogando na tela a impossibilidade da aproximação e do entendimento entre ele e a avó – e é de se notar que dois leitmotifs sobram no filme: a frase “No entiendo” repetida por Wahrmann quando a avó fala alemão e a percepção da câmera de filmagem por ela como uma câmera fotográfica para tirar-lhe um retrato.

Talvez por isso seja impreciso dizer que Oma é sobre a fragilidade da avó ou sobre a urgência de uma relação, pois parece muito mais um filme sobre a força, a dureza e a justeza das coisas, olhando o que elas são (ou eram), ao contrário da maior parte dos filmes memorialistas, que trabalham com a lamentação do que deveria ter sido e não foi.

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