No Silêncio da Noite

Se tivesse visto No Silêncio da Noite antes, meu filme O Pai Daquele Menino (quem não viu, aguarde – mas sentado!) seria outro filme. Fora os incontáveis problemas fruto da cabacice de estudante de cinema cheio de idiossincrasias – todos temos, mas estudantes de cinema os tem mais que os civis – o filme de Nicholas Ray é outro jeito de olhar com desconfiança para a imagem.

Há, me parece, duas “desconfianças” da imagem cinematográfica. O primeiro é hitchcockiano (Janela Indiscreta, o quase praxis-manifesto), baseado essencialmente no que não se vê, no intervalo de duas imagens. A questão passa a ser então obter outra imagem confirmando – ou não – a desconfiança. O não-visto deve ser visto, para tornar-se a certeza que uma outra imagem (a cinematográfica, criado no decurso e depuracão do tempo) é capaz de trazer.

A outra é a de No Silêncio da Noite: se desconfia do ponto de partida. Ou seja, o visto. A própria visão como propulsor da vertigem. Gloria Grahame vê a prova da inocência de seu futuro amante, Bogart, mas aos poucos a violência latente  dele começa a depôr contra essa inocência. Não a do possível assassino, pois todos vimos que ele não o cometeu, mas a do que virá: Bogart não matou ninguém, mas é capaz de fazê-lo.  Pois, a questão não está no crime, mas no homem (talvez com “H” seria mais propício). Isso a imagem não mostra, constrói.

Daí, se a assertiva de Godard “o cinema é Nicholas Ray” parece meio exagerada, principalmente fora de seu contexto, não perde a força da idéia de que Ray entende – e pratica – o cinema em estado bruto. No fundo, Godard entende em Ray a essência da linguagem do cinema: construção de sentido por imagens e sons tentando reorganizar o mundo. Não reproduzí-lo, nem reconstituí-lo, mas ser um novo mundo que espelha o “real” não por sua semelhança com a realidade, mas por mostrar as coisas como elas verdadeiramente são (conclusão que vem emprestada de Brecht).

E o mundo de Nick é duro, frustrante, um beco sem saída envolto no que a imagem (fotográfica, ou plástica, tanto faz) capta, mas que só a construção pela linguagem do cinema pode revelar, ou melhor, transparecer.

Visto no CCBB-SP em 35mm

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