O Destemido Senhor da Guerra

Outro dia na sessão no CCBB de O Destemido Senhor da Guerra, dirigido e estrelado por Clint Eastwood, um rapaz ficou resmungando durante todo o filme e saiu, ao final da sessão, esbravejando que o filme era uma droga.

Não estava escrito na bula: Clint Eastwood é um conservador.

Acho que o mais incomodou o rapaz (devia ter uns 20 anos) foi a parte da guerra, pois não é um filme anti-guerra, como parece o exigido por tudo que se considere moderno. Aí, então, a guerra começa e os inimigos são… os cubanos!

Por outro lado se entende: no fim dos anos 80 quem é o inimigo? Os russos já estavam se abrindo, os chineses adotavam o regime misto, os fundamentalistas não haviam mostrado suas armas. Sobra a eterna pedra no sapato: o país de Fidel.

Assim como em boa parte de seus cinema depois, Clint parece acredita na conciliação e na destruição das diferenças. Isso não se faz com ideologias nem com revoluções, mas com a prática do entendimento (às vezes, com umas porradas pra facilitar o serviço). Isso é o que faz dele um diretor conservador, na medida em que ele acha que a solução é esquecer os conflitos, fingir que nada aconteceu e vamos lá continuar nosso trabalho (no caso, guerrear, algo próprio dos soldados).

Ele poderia deixar Cuba de fora, ou qualquer outro ícone que trouxesse uma série de questões políticas à tona. Isso enfraquece o filme. Porém, Clint nunca foi um iconoclasta. Usou sempre ícones reconhecíveis como modo de aproximação com o público (O Estranho sem Nome, O Cavaleiro Solitário, Invictus, Gran Torino).

Pois, reside aí também um movimento sutil do filme. Os cubanos não representam ali o comunismo ou a esquerda, mas o verdadeiro inimigo e tema do filme. O antagonista não é o inimigo na guerra, mas o Major comandante de seu batalhão. É um burocrata que quer tudo feito na letra da lei, seguindo as ordens de comando e todas as regras dos manuais do exército. O personagem de Clint é o oposto disso: o senso prático, a ação, a experiência. Não é teoria contra a prática, mas sim o controle burocrático, o totalitarismo das regras, onde qualquer passo fora da linha significa desacato e, portanto, passível de severa punição. Daí se entende a escolha por Cuba: o regime castrista preenche bem os requisitos para ficar com o papel simbólico.

Mas a questão que mais me chamou a atenção é a revolta por tão pouco. O filme está longe das obras-primas do diretor, mas não é um apocalipse. Conservador não quer dizer monstruoso, ser de direita não é necessariamente pecado. Talvez a política brasileira não colabore; aqui as nuances são tão embaralhados pelo jogo de interesses que só quando a direita está muito à direita ela se torna perceptível (por outro lado, o PT que já não é tão de esquerda assim é sempre tratado como esquerda de fato, o que talvez não seja mais verdade). Clint me parece um caso de nuance: ele é republicano, conservador, mas não tem nenhuma afinidade aparente com Sarah Palin, acredito. Ou com Mel Gibson.

Divago: o caso era O Destemido Senhor da Guerra com sua articulação mal ajambrada da guerra e das questões políticas. O Clint conciliador será mais bem sucedido anos depois em Invictus e Gran Torino, onde esse projeto conciliador finalmente se concretizará pela tolerância e entendimento do outro. Conservador? talvez. Discutível? Nem pensar.

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