Saraceni e Stuart

Nesse fim de semana morreram Paulo César Saraceni e Adriano Stuart. Ainda que eu não conheça integralmente a obra deles, o pouco que vi dá para apontar algumas coisas.

Saraceni será (e é justo que seja) sempre mais celebrado. Fez parte do Cinema Novo com filmes seminais e potentes, não se rendeu ao oficialismo posterior dele (por isso talvez tenha “sumido”) e seus últimos dois filmes são bastante elogiados – o último, O Gerente, abriu Tiradentes ano passado, foi celebrado, mas permanece inédito.

Dele vi apenas Arraial do Cabo, Porto das Caixas, O Desafio e Anchieta, José do Brasil. Os três primeiros são obras maiores do cinema brasileiro, mas, principalmente, cada uma delas poderia ser tomada como exemplares bem potentes dos vários momentos do Cinema Novo.  O questionamento de O Desafio principalmente, o vazio e o desespero que parte das falas (e são muitas) e penetram porosamente nos planos. É uma espécie de reflexo opaco de Terra em Transe.  Por outro lado, Anchieta é um desastre, por outro lado. Contudo, um cara que realiza três filmes importantes em fases diferentes da cinematografia de um país jamais pode ser considerado menos que um grande cineasta.

Na outra ponta, Adriano Stuart foi uma figura daquelas que se olha sempre com desconfiança: o diretor-artesão. Entregou-se ao gênero cheio de espírito chanchadesco (Kung fu contra as bonecas e Bacalhau) e fez pelo menos um bom filme dos Trapalhões (O cinderelo trapalhão – os outros não vi). Não foi um tremendo diretor, mas Kung fu… e Bacalhau são um pouco aquela coisa do filme feito num sistema (precariamente) comercial que conseguem mostrar alguma força ao fazer graça com suas próprias limitações. O filmes dos Trapalhões é o outro papo: é um veículo para o grupo com garantia de sucesso, é um negócio grande e, para se sair bem, é preciso mostrar um pouco de firmeza. É o mais próximo de James Bond que o cinema brasileiro (e talvez o latino americano) já teve.

Tenho mais carinho pelo Adriano Stuart como ator. Achava-o uma figura interessante nos filmes que conseguia se virar bem mesmo não sendo um ator “técnico”. Vide a diferença que conseguia imprimir entre as personagens de Os Matadores, Boleiros e Encarnação do Demônio.

O principal: morreram duas figuras interessantes do cinema cujas obras estão, em alguma medida, deixadas de lado. Tirando os filmes de Stuart para os Trapalhões, que acabam de ser lançados em DVD, são muitos filmes (os mais interessantes) tanto de um quanto de outro que estão num limbo entre a cópia guardada nos cofres de alguma cinemateca, o Canal Brasil e o Karagarga. Por exemplo, só Anchieta está em DVD entre os filmes do Saraceni. E  restauração de O Desafio, por exemplo, onde está?

Por último: a morte dos dois não serve para qualificação ou desqualificação de um ou de outro (e de suas obras). Não se trata de quem foi maior, pois colocá-los junto em razão dos falecimentos próximos não serve à burra competição de importâncias que um pouco rege o pensamento industrial em que tudo tem um valor.

O fato é que os dois existiram no cinema brasileiro de alguma forma.

**

Arraial do cabo completo:

Cena de luta de Kung fu contra as bonecas:

Cena de Bacalhau:

Início de O Desafio:

Saraceni em acão:

Dossiê Saraceni na Contracampo: http://www.contracampo.com.br/artigos.htm

Texto sobre O Gerente na Cinética: http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes11dia1.htm

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: