Algumas idéias sobre política no/do cinema a partir de uma entrevista de Jean-Marie Straub & Danièle Huillet

Trechos de entrevista cedida em 2001 por Jean-Marie Straub e Danièle Huillet a François Albera, com tradução de Bolívar Torres republicada no catálogo de Straub-Huillet, mostra ocorrida no CCBB em janeiro deste ano.

Straub: (…) quanto ao cinema político, não sei muito o que é, sei cada vez menos, e espero que não saiba nunca: é a primeira coisa.

Em segundo lugar: – deixemos o cinema – não há filme político sem moral, não há filme político sem teologia, não há filme político sem o místico.

O que isso quer dizer? Bem, que a música de Anton Webern, por exemplo, é mais política que a de Alan Berg, que a música de Arnold Schoenberg é mais política que a de Alan Berg, que a música de Hanns Eisler é muito mais política que a de Kurt Weill. E para falar de todas as nossas últimas experiências, isso quer dizer que um filme como Fúria, de Fritz Lang, é bem mais político que M, o vampiro de Dusseldorf, contrariamente a tudo o que disseram as pessoas de esquerda sobre a ascensão do nazismo em M e O testamento do Dr. Mabuse.”

Straub: (…) É preciso, ao contrário, tratar as pessoas como adultos e lhes ajudar a ver e a ouvir, pois apenas quando seus sentidos estão afiados que a consciência se desenvolve. O contrário de toda a sociedade contemporânea, que trabalha com a restrição, com o malthusianismo, a pilhagem dos sentimentos.

(…) Então, um grande filme político seria também um filme que não oferece estatísticas e sim números (…)”

Straub: (…) Não se deve em hipótese alguma ter medo das contradições, senão fazemos exatamente como a sociedade na qual vivemos, que trabalha fabricando robôs e aleijados: robôs no plano moral e intelectual e aleijados no plano dos sentimentos. É preciso então nadar contra a corrente.”

Straub: (…) Ora, se fazemos um filme politicamente, quer dizer, organizando aquilo que fazemos, isso quer dizer escolher os atores sem se dirigir ao casting ou à bilheteria, sob o pretexto que precisamos fazer isso senão não conseguimos dinheiro, que sem Depardieu o filme não se faz, sem a última bela menina da moda não teremos dinheiro do CNC, o filme não irá a Cannes, etc. Senão, não só não fazemos filmes politicamente, como também não fazemos os filmes que queremos fazer. Brecht já dizia em seu prefácio a Kuhle Wampe: “A organização nos custou muito mais trabalho do que die kunstlerische arbeit… o trabalho artístico por si só” e, diz ele, isso vem do fato de que era um filme político.

(…)

Huillet: Sempre há o momento em que somos forçados a dizer: não mesmo! Vai ser assim e se vocês não querem vamos nos encarregar nós mesmos. Até mesmo escrever em um folheto “este filme foi recusado pelo comitê de seleção do festival de Cannes”, o que é a estrita verdade, desperta as reprovações de nossos amigos, que exclamam: “O que vocês querem? Agitar os coqueiros de Cannes?” E nós dizemos: “Escutem, se vocês não querem ficar de mal com o mundo de vocês, porque no fim das contas é o mundo de vocês, não o nosso, nos encarregaremos da tarefa nós mesmos”… E, finalmente, já que “Straub” virou uma marca, já que agora eles até gostam da gente, acabam cedendo. Mas continuam sendo medidas de força.

Straub: Fazer filmes politicamente é fazer um filme com as objetivas que precisamos, o número de metros de película de que precisamos, rodá-lo na ordem que precisamos, é pagar os técnicos ao menos pela tarifa sindical e pagá-los no início de cada semana e não no fim, e não deixar que nos imponham economias ridículas enquanto a produção comercial no geral gasta dinheiro com despesas falsas e coisas ridículas e condena as pessoas que fazem filmes, mesmo essas pessoas prestigiadas como Bertolucci, a ter copiões em preto e branco ou a se limitar a duas objetivas.”

***

Três coisas me chamaram a atenção nesse último trecho:

1. Festivais – Huillet volta ao assunto adiante nessa mesma entrevista: “O sentido da palavra política é também o de liberdade. Se eu faço questão que tenha uma frase sobre o festival de Cannes, não é por vingança, nem para agitar o que quer que seja, pois não vamos agitar nada, mas sim porque alguns jovens precisam saber…” Com o que Straub completa: “… que não existe liberdade artística em um sistema capitalista! E que até mesmo esses organismos supostamente a serviço da cultura estão apenas a serviço da indústria cultural do cinema francês”.

Apesar do aparente discurso ressentido (e o é em certa medida, ainda que Huillet negue), eles levantam uma bola importante de se lembrar: os festivais de cinema tem um lugar estratégico na indústria cultural. São a vitrine da loja (e é importante lembrar que os grandes festivais mundiais sempre tem um mercado audiovisual que rola ali atrás).

São dois lados fundamentais do mercado de cinema: os filmes comerciais, visando estratosféricos números de bilheteria, se utilizam dos espaços na grande mídia, dos bombardeios publicitários, do poder midiático de suas estrelas; os festivais, por sua vez, promovem grifes cinematográficas e dão vitrine para alguns filmes, chancelando seu valor cultural e artístico, permitindo sua entrada em diversos mercado pelo mundo (menores, mas ainda sim mercados).

Não interessa muito um julgamento de valor desse processo; ele é um dado. Os grandes festivais não são grandes festas de exaltação da arte cinematográfica, mas braços armados da indústria cultural que faz essa dupla operação (sabe-se lá há quanto tempo): megafilmes para consumo rápido no varejo; médios e pequenos filmes de “alta costura” para o mercado de luxo. Associações mais precisas do mercado cinematográfico com o da moda ainda estão para ser investigadas.

2.  A arma apontada na cabeça – Os Straub levantam outra bola: fazem o filme que querem do jeito que querem. Sai daí também boa parte da justeza de suas obras. Eles pegam dinheiro o suficiente para fazer o filme, mas também relativo ao grau de controle que estão dispostos a abrir mão. No caso, quase nenhum. E, por isso, fazem o filme que querem fazer.

Isso me lembra o recente caso do Heitor Dhalia com seu 12 Horas. Ele abriu mão da autoria do filme, pois o produtor ficou com o corte final; reclamou, mas disse que faria de novo. Fará de novo porque quer, não se sabe o porquê exatamente: fama, dinheiro, status ou tudo ao mesmo tempo agora.

 Acho que Clint Eastwood disse que ninguém aponta uma arma na cabeça do diretor quando ele aceita filmar algo. Talvez seja um pouco inocente da minha parte, mas dou total razão: ninguém é obrigado a filmar nada que não queria. Michael Cimino está aí (ou melhor, não está) para prová-lo.

3. Remuneração – Fazer um filme político é fazê-lo politicamente. Isso significa pagar pelo trabalho das pessoas o que ele vale e, também, de forma justa.

Huillet volta nesse assunto em outro texto do mesmo catálogo, um diário das filmagens de Moisés e Arão feito por um assistente (Gregory Woods) e publicado com notas dela na Cahiers du cinéma nº 260-261, outubro/novembro de 1975 (tradução de Alice Furtado):

“(…) eu o faço [o pagamento dos figurantes] discretamente, é uma operação que detesto (exceto com os técnicos, que estão acostumados, mas que se surpreendem sempre, mesmo aqueles que já trabalharam com a gente, que eu os pague no início da semana, portanto, adiantado, e não no fim, com o trabalho já feito… Porque não entendo por que se pede às pessoas para antecipar seu trabalho; e além disso, eu fico bem contente de me livrar desse dinheiro sem ter de transportá-lo comigo por mais tempo ou guardá-lo no hotel).”

Hoje, devido a razões de financiamento dos filmes e talvez pela ideologia “industrial” (= tempo é dinheiro + mais-valia) do cinema brasileiro, a remuneração é um caos. Os produtores estão cada vez mais aproveitadores, usando a dificuldade de financiamento dos filmes para pagar menos os técnicos, mas mantendo seus ganhos intactos. Assim, muitas vezes se paga pouco e apenas depois de 15 dias, 30 dias, às vezes 60 dias.

Os Straub só se metiam a fazer um filme quando tinham o dinheiro necessário para fazê-lo dessa forma que consideravam a mais política. Caso contrário, não faziam (essa, se não me engano, é uma das razões de terem demorado quase 15 anos para fazer Moisés e Arão: queriam fazer um filme maior do jeito que planejaram desde o início).

Os sindicatos, por outro lado, não sabem muito bem o que e quem estão protegendo. Faz um tempo, o Sindcine ligou para a produtora de um amigo cobrando os contratos de trabalho de toda a equipe de um curta que fora feito na faculdade de cinema, quando eram estudantes.

Essa questão do pagamento antecipado pelo trabalho é fundamental até para entender a visão de mundo dos Straub: um filme não é mais importante do que o mundo, as pessoas, as relações; um filme é produto de uma relação e uma coisa contamina a outra. Essa impureza do trabalho (de que se faz o filme) é quase teológica, mas interessante de se pensar. Assim, se Straub diz “um filme político é aquele que deve lembrar as pessoas que não vivemos no melhor dos mundos possíveis”, a organização do trabalho em seus filmes segue essa lógica, por isso a surpresa dos técnicos atentada por Huillet: há um mundo melhor possível.

Não no caso do mito da indústria cinematográfica no Brasil. Sob essa égide, a exploração rola solta.

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