Novíssimo

Marcelo Ikeda publicou em seu blog (http://cinecasulofilia.blogspot.com.br/) no dia 18 de março de 2012 um texto sobre o rótulo Novíssimo Cinema Brasileiro. (Não sei se posso reproduzí-lo aqui, então, deixo o linkhttp://cinecasulofilia.blogspot.com.br/2012/03/acho-engracado-quando-as-pessoas-dizem.html)

Motivado pelo texto, escrevi algumas notas – e isso é legal num blog – que, se podem perder força no decurso do tempo, servem para uma reflexão de momento, de estado de espírito, de construções de pensamento feitas passo-a-passo.

O Novíssimo é o tema da vez do cinema brasileiro e tem muita gente de todos os lados possíveis, a meu ver,  fazendo julgamentos tão definitivos quanto precipitados. O diálogo corre o risco (eterno) de cair num entusiastas versus detratores.

Por isso, alguns pensamentos sobre o texto de Ikeda:

1.

Evidente que esses nomes tratam de simples rótulos. E sempre servem mais à mídia que aos filmes, aos realizadores e aos críticos que acabam, na maioria retumbante das vezes, escorregando nas “cascas de banana”. E sim, Ikeda tem razão quando afirma que os rótulos servem mais a marcar algo acontecendo que a definir. Porém, tem algo de leviano na argumentação: os rótulos não dizem nada mesmo?

Pense na Nouvelle Vague. Alguém tem dúvidas de que estamos falando basicamente de Godard-Truffaut-Chabrol-Rohmer-Rivette e de um período que vai de 59 a 63? E que o conjunto dos filmes dialoga com o cinema clássico americano, relendo-o para o contexto francês tendo como baliza Jean Renoir em oposição ao “cinema francês de qualidade” (identificado pela ditadura do roteiro)? Agora pense no Cinema Novo. Um grupo de cineastas que se encontraram no Rio, um conjunto de filmes entre 62 e 67, passados nas ruas, sobre pessoas desfavorecidas socialmente, opondo-se à chanchada (o cinema velho) tendo como baliza Nelson Pereira dos Santos.

Não interessa muito o conteúdo das delimitações, são ruins mesmo. Mas duas características me parecem evidentes quando se tenta delimitar o que é a Nouvelle Vague ou o que é o Cinema Novo (ou mesmo o Cinema da Retomada cujo projeto estético é bastante obscuro): a oposição do novo ao velho – Nouvelle Vague (mise-en-scène) versus cinema francês de qualidade (ditadura do roteiro); Cinema Novo (popular, político, de esquerda) versus chanchada (popularesco, comercial); Retomada (pensamento industrial) versus o passado do cinema brasileiro (artesanal) – e a passagem do tempo, ou seja, esses rótulos e o que delimitam foram feitos a posteriori.

2.

Os rótulos marcam algo novo, mas as “novidades”, pelo menos, negam algo. Aí acho que Ikeda foge um pouco. Pois sim, o novo existe, em alguma medida, em relação a algo que não é novo. Se é “novíssimo”, então, é mais novo ainda. E, por enquanto, só o modo de produção e como os filmes chegam em seu público é que é “novíssimo”.

O curto-circuito da interlocução se mostra aí. É apenas em relação ao seu modo de produção e existência no mundo que o Novíssimo é, por assim dizer, “novíssimo”?

Ikeda diz “há algo de novo no ar no cinema brasileiro de hoje, que foge dos circuitos oficiais de fontes de financiamento, modo de produção, distribuição e exibição, ou como esses filmes trabalham com o tempo, com o espaço, com a narrativa, com os personagens, com a cidade, embora, possam esbarrar, em maior ou menor grau, nos modelos mais tradicionais”. Ecoa sem dúvida o início do texto de Cezar Migliorin: “Os últimos anos têm nos deixado claro que há algo importante acontecendo nesse cinema brasileiro que não esconde mais o rótulo da cerveja nas cenas de bar”. Os dois trechos são muito precisos quando se trata de descrever o modo de lidar com a produção, mas evasivos quando se trata de estética, ou especificamente como é esse modo novo de aproximação dos filmes (e não precisa único) com o mundo. Ou como ele é diferente do anterior (é de se reparar que Ikeda fala em “esbarrar nos modelos tradicionais” sem definí-los também).  O argumento é o mesmo: há algo acontecendo, há algo especial, raro ou singular. Esse brilho novo ainda é um buraco negro teórico.

3.

Os rótulos marcam algo, sim, mas é a depuração do tempo que permite enxergar com mais clareza do que se está falando. Aí é que o texto de Ikeda parece deslizar, pois ele tem a ilustração dos afoitos. As pessoas (acho que os jornalistas mais que qualquer outro grupo) pedem delimitações. Não interessa muito. O tempo se encarrega um pouco disso. Agora, o tempo não faz milagre. Daí é necessária uma interlocução mais cuidadosa. Não afetiva, mas amorosa.

A pressa na interlocução é o que pode causar os enganos. Os filmes são feitos, exibidos, nós conversamos com eles e deixamos que esse diálogo se abra e reverbere. Aos poucos o diálogo vai tornando o turvo transparente e os limites se mostrando. Não é com machadadas de “algo de novo no ar” que o raro, especial ou singular vai emergir num passe de mágica. E Ikeda, como um dos mais ferrenhos interlocutores do Novíssimo, é que parece estar com pressa de delimitar essa geração e esse conjunto de filmes como “especiais”.

Sim, Guto Parente, Pedro Diógenes, Irmãos Pretti, Helvécio Marins, Sérgio Borges, Gustavo Pizzi, Gabriel Mascaro, Marcelo Pedroso são talentosos, fizeram curtas e primeiros longas mais interessantes que alguns diretores surgidos na retomada. Contudo, pode ser apenas uma geração mais talentosa que vai fazer alguns bons filmes, outros nem tanto e, no fim das contas, se mostrar mais importante que a anterior, mas não necessariamente definidora de uma paradigma estético do cinema brasileiro, como se força a pensar por essas assertivas. E não há nenhum mal nisso. Muito pelo contrário: se o Novíssimo der alguns bons filmes, já vai muito bem.

Imagino que os cineastas do Novíssimo não carreguem o peso da “raridade” e do “especial” nas costas na hora de filmar. Mas alguns interlocutores pesam a mão nisso. Mais uma vez, vamos dar tempo ao tempo. Contraditoriamente, o próprio Ikeda, apesar de afirmar com veemência que tem algo especial acontecendo no cinema brasileiro, usa a palavra “aposta”. Por enquanto, essa é talvez uma palavra melhor. Pois, a pulga atrás da orelha faz bem ao trabalho crítico.

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