Quanto Mais Quente Melhor

Billy Wilder é um mestre da dramaturgia no cinema, algo evidente em seus filmes, mas muito prazeroso nas suas grandes obras-primas Pacto de sangue, Crepúsculo dos deuses, Se meu apartamento falasse e Quanto mais quente melhor. Falar dessa maestria não é apenas apontar uma boa escritura, pois as palavras no papel ainda não são filme. o caso de Wilder é daqueles em que o artesanato do cinema se dá em perfeito equilíbrio com o roteiro. É uma questão de encenações, movimentos, ritmos e tempos mais que cenas, ações, palavras e falas.

Em Quanto mais quente melhor é o Billy Wilder dramaturgo-total em cena. Suas falas espertas, tão famosas, estão aqui e ali em momentos precisos e os diálogos tem sempre o duplo sentido de seu reconhecido humor. Contudo, aqui não se trata de uma comédia cotidiana como Se meu apartamento falasse no qual a potência dos diálogos e das tiradas rápidas chegam ao ponto culminante dentro da obra do cineasta, muito pela observação precisa dos costumes e vícios das personagens. Quanto mais quente… é de outra natureza: é a comédia de erros por excelência do cinema. É ação e reação, virada e revirada, o lugar e o fora de lugar.

Principalmente, Quanto mais quente… é a comédia da arte do disfarce, a estratégia íntima do cinema. Em Quanto mais quente… todos as personagens escondem suas verdades por trás dos disfarces desde a primeira cena em que o policial se finge de um cliente comum em um bar disfarçado de café com mafiosos que fingem beber leite e não uísque. É um tipo de comédia baseada no duplo sentido (ser ou não ser, eis a questão) e na ironia dramática (o espectador consegue reconhecer quem é quem, as personagens não). Quanto mais quente… é o ponto alto do elogio ao disfarce que vai encontrar ressonâncias em cinemas tão distintos quanto Blake Edwards, Trapalhões e Irmãos Farrelly (penso principalmente em Quem Vai Ficar com Mary?).

O mais evidente e famoso dos disfarces é o de Joseph e Gerald, dois músicos na miséria que, jurados de morte por mafiosos, fingem ser Josephine e Daphne e embarcam com um conjunto musical feminino para a Flórida. Travestidos, eles tem de lidar com seus desejos sexuais e o medo da descoberta de suas identidades. É do jogo das aparências que saem os erros. As aparências nunca enganam (o espectador), pois são sempre o procedimento por trás do jogo social, desde Tony Curtis que se privilegia de sua amizade com Marylin Monroe para inventar o milionário que vai conquistar o coração da moça, passando pela dona da banda que odeia homens junto das suas comandadas, mas que as faz disponíveis para o público predominantemente masculino após os shows; até mesmo os mafiosos que, em reunião, fingem tratar de uma convenção de amantes da ópera italiana. Em sociedade tudo é aparência, todos estamos disfarçados das personagens que queremos mostrar ao mundo (ou que em alguma medida nos favorece).

E há, claro, Marylin. Sugar, sua personagem, é a única em todo filme que mantém-se inteiramente à mostra, fora do jogo de disfarces, de peito aberto aos desejos e aos infortúnios, às reprimendas sociais por causa da bebida e desilusões amorosas que atormentam sua vida. Interessante pensar em como Sugar é o lado frágil que Marylin, a atriz, tentou esconder por trás do vulcão sexual que caracterizava sua persona em Hollywood. Marylin preferia a imagem de sua personagem em O pecado mora ao lado: sexy, voluptuosa, tão carinhosa quanto safada e – por que não? – burra.  Sugar, por outro lado, é romântica, alcoólatra, sincera, melancólica, inocente. Marylin é o disfarce de Sugar, fazendo da personagem o inverso das outras personagens do filme. Onde tudo é disfarce, Sugar é revelação, é a personagem de integridade do filme.

Não que isso importe (e não importa nada). A integridade não é valor de troca para a moral. Quanto mais quente… é um filme de sobreviventes. Então, a moralidade do disfarce é irrelevante. Vale mais que qualquer outra coisa conseguir sair vivo das garras dos mafiosos e ficar com a garota no final. A fuga da última cena é também simbólica: as personagens fogem da confusão causadas pelas máscaras e revelam-se uns aos outros para obter o perdão e a compreensão – amorosa no caso de Tony Curtis, cômica no caso de Jack Lemmon. Para viver sem disfarces, só mesmo fugindo para uma ilha deserta. E o último que sair, apague a luz, por favor.

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