Busca Implacável

Há um nó em Busca Implacável. Sua ficção é plenamente reconhecível, seus artifícios mais do que codificados, o artesanato é daqueles que não se leva muito a sério hoje – herdeiro direto do efeitismo da publicidade e a cognição hiperativa do videoclipe, a expertise Luc Besson, decalque do cinema de ação americano. Mas tem esse personagem encarnado por Liam Neeson, o mais aterrorizante dos protagonistas de filme de ação recente. Esse agente da CIA aposentado volta à ativa para resgatar a filha das mãos de uma quadrilha de tráfico de mulheres, o que por um lado desperta uma velha questão de pai protegendo sua prole. Que os albaneses malvados tenham raptado, drogado e vendido a garota para um sheik árabe só potencializa a equação. Nesse sentido, há uma jornada que o herói terá que fazer o impossível para descobrir o paradeiro da garota e derrotar sozinho toda uma quadrilha que envolve altas esferas do poder.

O filme compartilha algo com Dirty Harry: o personagem fará o que for necessário para resgatar a filha. Neeson matará, torturará cruelmente os bandidos, inclusive atirará na esposa de um “policial amigo” francês que tenta impedi-lo de continuar sua baderna na terra dos outros. Os limites (da moral, da ética, dos direitos humanos etc etc etc) viram pó. A diferença – e isso é assustador – é que Dirty Harry está no terreno muito caro ao cinema americano da ordem pública. Harry é um policial que extrapola o sentido de autoridade para pegar um serial killer que assusta a cidade. No fundo, Dirty Harry é um filme sobre um sistema legal-policial-judicial, atua na esfera pública.

O agente de Neeson não. Sua ação é pessoal, afetiva – um pai protegendo sua filha. A evidência está na tensão do fora de quadro – a maldade não está em cena e sim os malvados entram em cena quando Neeson os descobre. Sabe-se muito bem que existe uma quadrilha, um esquema de prostituição, várias garotas vítimas dessa vilania, poderosos interesses econômicos (“it’s just business” como diz um ricaço), mas outras garotas, ricaços que compram suas virgindades, poderosos que articulam outro braço do esquema, isso pouco importa se não ligados com a questão particular-afetiva do personagem de Neeson. O parti-pris da ação relaciona-se com a intimidade de uma relação paternal e os instintos de ameaça. Vê-se não um agente da CIA, mas um pai protegendo a filha. O que não é isso, não é isso, ponto, próxima cena. Resumindo, uma inversão do heroísmo do cinema policial: azar dos caras que seqüestraram a garota errada.

O filme enfrenta a moral do super-pai. O nó está aí: quando se trata de marginais, assassinos, serial killers, terroristas internacionais ameaçando boa vida na sociedade capitalista, os limites da lei e da ordem são facilmente colocados em questão; um pai extrapolando esses mesmos limites para salvar a filha deve ser discutido? Ou um pai tem todo esse direito (como o moralismo da família burguesa faz crer)? Que um filme de ação, para além de toda sua potência narrativa, possa levantar essa bola, não é de se jogar fora.

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