“Veja só as primeiras entrevistas da secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana, em que fala de coletivos criativos. O ponto de vista dela é o fomento de empreendedorismo, não de criação artística: fala de arte como produto de prateleira. Revelou total desconhecimento do que é “coletivo” e processo artístico, fala em potencializar “processo criativo” dentro de uma lógica de laborterapia e evento de mídia (falou até em reality-show). Como se o governo tivesse que propor métodos de criação artística que visassem um determinado tipo de produto e que esses projetos fossem uma publicidade de si mesmos. Vemos aí o poder institucional e a política oficial entrando em um campo que não lhes diz respeito, que é o da criação. O que eu quero dizer com isso é que a arte está perigosamente instrumentalizada por uma ideologia desenvolvimentista, mesmo que seja de caráter mais social do que econômico. Essa ideologia está preocupada mais em fazer política que possibilite uma autopropaganda de desenvolvimento social, do que realmente em mexer no vespeiro que é a produção de arte no país.”

Esse trecho da conversa do crítico Francis Vogner dos Reis com o cineasta Tiago Mata Machado me despertou uma velha ideia ainda a ser profundamente estudada da interferência oficial na produção de cinema pós-Retomada.

Bernardet em seu livro Cinema brasileiro: propostas para uma história levantou algumas bolas do assunto, mas seu estudo é dos anos 70, e os dados são outros. A relação do Estado com a classe cinematográfica era – tenho a impressão – mais clara, existia uma ditadura que jogava na produção (por editais para filmes históricos) e existia um órgão, a Embrafilme, que se equilibrava dentro da política dos militares tentando atender os interesses de um certo grupo de cineastas. De qualquer maneira, Bernardet tenta trazer à luz um discurso oficial compartilhado pelo Estado e os cineastas,o primeiro necessitando de alguém para fazer sua propaganda ideológica e o segundo na fome pelo dinheiro que o primeiro tem a dar. Com o tempo, os próprios cineastas passaram por um processo de autocensura, resultando daí um discurso amputado que, se não era pró-governo, pelo menos estava neutralizado.

Esse comentário citado do Francis não está falando disso especificamente, mas me pareceu um a possibilidade de levantada num tema que é mais amplo (e por isso necessitada de um estudo bem profundo): o quanto a política estatal se manifesta nos discursos fílmicos desde a Retomada.

Penso eu que desde a Retomada, com a criação das leis de incentivo e dos editais de fomento em diversas instâncias da federação, essa questão do ideologia de Estado nos filmes produzidos com seu dinheiro a partir de sua escolha foi esquecida (já que agora estamos numa democracia) ou convenientemente escanteada já que a classe cinematográfica não quer revirar a caixa de areia criada por ela mesma. Não podemos esquecer que as leis de incentivo foram em certa medida propostas por “membros ilustres” da classe e os editais tem em suas comissões (em geral) profissionais de cinema ou pessoas ligadas a entidades da classe. Há, então, uma conciliação de interesses: a classe cinematográfica (ou parte dela) e o Estado aceitam os termos que parecem  favorecer-lhes mutuamente.

A questão principal é o quanto isso atinge os filmes. Com isso em mente algumas ideias – levianas, talvez:

1. Não seria possível que, assim como  Bernardet diagnosticou nos anos 70, hoje parte da produção que depende do dinheiro público para existir não teria se “adequado” ao que, no senso comum da classe cinematográfica, recebe dinheiro das grandes empresas ou ao tipo de filme que ganha edital?

2. Por que se ignora a possibilidade de um “discurso de classe” no sentido de que há uma ideologia mais ou menos homogênea entre os profissionais e líderes de entidades (como ABDs, SINDCINEs, ECINEs, ANCINEs etc) como, por exemplo, a profissionalização, a industrialização, o alcance do público, a conquista do mercado, a supervalorização dos resultados em festivais internacionais? Como a própria classe compõe, em sua maioria, as bancas julgadoras de editais, isso não estaria de alguma maneira, “formatando os filmes”?

3. Acho inocência – ou má fé – pensar que o Estado “faz o bem sem olhar a quem”. Não se trata de conspiração, mas de juntar os pontos: o maior investidor pelas leis de incentivo é uma empresa de capital misto com o Estado como acionista majoritário; em editais, o dinheiro vem diretamente dos órgãos do governo. Por que acreditamos que esse processo de financiamento é justo, isonômico e neutro?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: