Corpo presente e seu espaço

corpo presente

No início da sessão de Corpo presente, de Paolo Gregori e Marcelo Toledo, no CCBB esta semana, o produtor disse que o filme será lançado comercialmente no início de 2013 e deixou o contato para quem tivesse vontade de falara algo que ajudasse o filme a “encontrar seu lugar” (a expressão é minha) no duro processo de distribuição do filme.

O caso é que Corpo presente se alinha a um cinema popular. É diferente da “globochanchada” que confunde popular com comercial e faz produtos de amplo mercado para as distribuidoras – é um trabalho mais de juntar as peças certas e fazer um forte esquema de divulgação do troço. Também é diferente de algo como Billi Pig, cuja associação popular = desleixo é muito mais uma postura de deboche em relação ao “popular” que um abraço à causa. Um como outro sabem que no fundo seu público é de classe média, tem dinheiro, quer pensar que é mais sofisticado que o populacho e não está afim de se arriscar muito com os filmes – ou eles vão ao público ou vão pro limbo.

Acho que nenhum público – enquanto “entidade” – está muito aberto ao risco, mas os hábitos de quem vê Se eu fosse você ou De pernas pro ar é muito pouco afeito às investidas numa sala escura sem ter nenhuma credencial sobre o filme. Quando isso acontece e o filme não atende aos anseios “do público”, ele é retalhado (o caso recente narrado pela colunista da Veja, se não me engano, sobre a sessão de Holy motors é um exemplo).

Corpo presente é um filme com desejo de cinema popular. Começa que as personagens habitam a periferia de São Paulo, não são artistas nem intelectuais nem pensadores, são trabalhadores; têm sonhos, mas precisam trabalhar para resolver as contingências cotidianas. Alinha-se, portanto, com uma experiência de cinema popular muito paulista que encontrava no centro da cidade seu espaço de existência – ali os filmes eram produzidos, distribuídos, exibidos. O “público” não era uma entidade, mas as pessoas que transitavam por esse espaço, eram mais identificáveis, a decodificação de seus hábitos era, a meu ver, menos pautada pela paranóia estatística, quase uma mitologia do público, e mais pelo encontro direto com esses espectadores. Era uma indústria precária e aviltada, mas alguma coisa funcionava ali, a ponto de dentro dessa produção surgirem casos extraordinários como o Carlão e o Candeias.

Então, o problema de Corpo presente não é que ele seja um filme sem lugar; o lugar dele é que não existe mais. Acho muito cabível que, caso exibido em um cinema poeira na praça da República, um espectador desavisado que entrasse na sessão do filme teria algum prazer em ver o filme. Pelo menos o filme é bastante convincente em abraçar o centro de São Paulo, o trabalhador comum e seus anseios, o cinema popular que tentava lidar com essas questões de alguma forma – uma apropriação até certo ponto fassbinderiana, como sugere Fábio Andrade em seu texto de Tiradentes sobre o filme. Há um prazer em ver Corpo presente e ele seria um curto-circuito agradável neste espaço que não existe mais. Uma pena. A sessão exibida na retrospectiva da Semana dos Realizadores com Borboletas indômitas (curta de Daniel Chaia, uma espécie de pocket de As panteras em versão paulistana) e Corpo presente daria certo. Pior para o público.

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