Retrospectiva, por Michael Powell

coronel blimp

Há quarenta anos nossa expectativa de vida (a sua, a nossa) não era grande (a não ser os alemães), mas a de um filme, mesmo em tempos normais, era ainda mais curta: três ou quatro anos no máximo. Se dissessem, a nós realizadores, que quarenta anos depois nossos filmes seriam não somente exibidos, mas considerados como parte da herança cultural de nossos respectivos países, nós não acreditaríamos.

Quando eu consegui meu primeiro emprego em 1925 nos Studios de la Victorine em Nice, os filmes eram mudos e o cinema incipiente. Qualquer pessoal inteligente na Europa se interessava no nascimento dessa nova arte, surgida do pastelão e dos folhetins, já trazendo o teatro de Max Reinhardt e a Revolução russa a nossas telas ao mesmo tempo das cenas da cidade americana, o faroeste, os filmes de Abel Gance e de Marcel L’Herbier.

Eu me lembro que foi uma revista apaixonada pelo cinema, Picturegoer, publicada na Grã-Bretanha, que me incitou, com seus artigos sobre a realização dos filmes, a entrar no mundo do cinema. A capa mostrava uma jovem sentada num trenó na neve. Era Ivy Close, atriz de A roda. Ela era casada com um fotógrafo, Elwin Neame, Ronald Neame, seu filho, é um de meus amigos. Ele foi o fotógrafo de E um de nossos aviões não regressou e realizou filmes tão bons como Tunes of glory e The prime of miss Jean Brodie. Atualmente ele monta seu último filme na Paramount, perto daqui.

Ainda que, entre as duas guerras, o falado fizera do cinema uma indústria de ponta, com o esbanjamento enorme de seres humanos e material que disso resulta, e centralizara a produção em Hollywood por um tempo, nós, cineastas, pensamos, então, criar o efêmero. E pouco nos importava.

Tínhamos entre as mãos o mais belo brinquedo do mundo. Apenas após a guerra foi que pessoas sensatas compreenderam a importância da conservação dos filmes, em nome da Arte, mas também da História: Iris Barry do Museu de Arte Moderna de Nova York; Henry Langlois, criador do Musée du Cinéma au Palais de Chaillot; Ernest Lindgren, primeiro conservador do British Film Archive.

E aqui estamos, em latas, com mais 250 outros. Powell e Pressburger, não em carne e osso, mas em latas. Sobrevivemos a quarenta anos de luta pela vida e pela arte, trabalhamos com maravilhosos técnicos originários de toda a Europa, tivemos triunfos e desastres, vivemos por meio de nossos filmes e estamos, ainda, vivendo. Que mais pedir?

Nosso desejo é, agora, que nossos filmes, em particular Coronel Blimp, nos faça sobreviver. Graças aos fãs da Defesa do Patrimônio, talvez…

Zoetrope Studios, Hollywood, fevereiro de 1981

Michael Powell

Texto especialmente escrito para a revista Positif, número 241, abril de 1981.

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