Um fragmento:

“Existe o cineasta que tem ou não o que dizer, e, ao mesmo tempo, aquele que sabe fazer cinema comercial e aquele que não sabe. Porque não estou contra o cinema de consumo, que deve existir na América Latina e bem feito, porque é um instrumento para a conquista de um público, para a edificação de uma economia cinematográfica própria. Cinema não é poesia, literatura ou pintura: é uma atividade industrial sob qualquer regime, capitalista ou socialista.

O que não pode é ser um produto comercial inferior, porque não poderá competir com a penetração de um cinema muito mais acabado, como o americano, que é feito por máquinas IBM, células eletrônicas que programam as produções. Na América Latina não se sabe e se continua falando de diretores americanos que não existem. O cinema da América Latina tem que se desenvolver, fazer filmes de consumo, conquistar o público, enfrentar o cinema americano numa competição direta. Fazer obras polêmicas, de arte, de política, de tudo. É este um processo muito complexo que não pode ser visto isoladamente. O que acontece é que os jovens cineastas independentes combatem a indústria, fazem películas que pretendem ser testemunhos sobre suas vidas, o que é um fenômeno literário que não tem interesse. O cinema é uma arte nova que tem de ser conceituada também em termos do que interessa expor. Há assuntos que são ótimos para a poesia ou diário literário, mas não para o cinema. Eu não quero saber de reflexão do cineasta argentino sobre sua amante; pode escrever um livro, se quiser, rodar um filme em 16mm. Mas o que acontece é que um cineasta jovem consegue dinheiro, faz um filme em 35mm, imitado geralmente de Godard e depois não é exibido, e se o é fracassa.

Então o tipo se queixa e diz que é vítima do sistema. E não é assim, ele deveria saber que o cinema é uma técnica moderna de comunicação na qual só se pode fazer determinados tipos de filmes. Se fizesse um filme que encerrasse uma polêmica cultural violenta capaz de suscitar uma grande reação no próprio sistema, poderia ter feito um filme comercial, de certa qualidade técnica e artística que quebrasse a barreira da competição estrangeira. Mas se quiser fazer testemunhos pessoais, experiências estéticas ou políticas, que rode em 16mm; porque, se quiser entrar no mercado de 35mm, tem que sofrer os prejuízos inevitáveis disto e não se queixar de que o cinema está industrializado ou fazer papel de cineasta maldito. O cineasta tem que ser homem prático, produtor, distribuidor; não pode ser somente intelectual. O cinema implica hoje uma nova concepção. Luto por isso, pela atualização dos critérios da crítica, que deve partir da análise econômica do cinema. Ficar no teatro puramente estético é uma alienação e esse é ainda um defeito do cinema da América Latina, embora tenha havido grande evolução, maior tomada de consciência do problema.”

outro fragmento:

“O que deduzimos daí é menos complicado teoricamente e prático: o produto cultural, para existir e circular, necessita de mercado. Um produto cultural que se opõe à ideologia estética dos fascismos dominantes e à estética de entorpecimento americana deve criar seu próprio mercado. Deve revolucionar o velho mercado. À medida que o mercado se dilata para um novo tipo de filme, o novo tipo de filme se desenvolve.”

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