São Paulo – o mundo é aqui

Mais um texto dos “achados e perdidos” que não sei se foi achado ou perdido, mas em tempos de possível criação da SP Filmes aos moldes da RioFilme talvez tenha alguma coisa para a discussão.

O texto foi escrito por causa do vídeo São Paulo – o mundo é aqui que circulou nas redes sociais no final de 2011. Algumas coisas mudaram de lá pra cá, mas o substancial, acredito, permanece o mesmo. E a tal SP Filmes aparentemente vai manter as coisas no lugar.

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Salve-se Quem Puder

Fico constrangido com o vídeo São Paulo – O Mundo É Aqui, que começou a circular nas redes sociais, uma campanha organizada pelos produtores de cinema de São Paulo contra a redução da verba do orçamento da cultura para 2012.

Constrangimento, primeiro, pelo “quem não chora não mama”, um estratagema conhecido, não só dos produtores paulistas. Segundo, porque o vídeo que se propõe a expôr as fraturas possíveis do cinema paulista no caso da futura na redução, na verdade, deixa abertas as fragilidades desse cinema, transformando o que era um propaganda de defesa num inventário de alguns dos maiores problemas do cinema paulista hoje.

São Paulo versus o mundo

Primeiro argumento: São Paulo não tem imagem audiovisual perante o mundo. Nova York, Paris e (por que não?) o Rio de Janeiro tem. Resultado da falta de investimento: São Paulo investe menos em cinema que o Rio, Recife e outras cidades do Brasil.

O problema está em outro ponto: a cidade não cultivou suas imagens, nunca teve uma política cultural que olhasse para a preservação e difusão, não apenas para o dinheiro para produção. Não é dinheiro que vai fazer a imagem de São Paulo ser “exportada”, mas o cuidado com o audiovisual, com a preservação das obras, fazer com que as imagens já feitas cheguem às pessoas. Isso não passa só pelo Estado, mas também pelos realizadores: lutar pela conservação decente de suas obras, não por guardá-las em cofres públicos, mas fazê-las existir.

A difusão das imagens produzidas (não só as de hoje e amanhã) é que cria uma imagem audiovisual da cidade. Quantos filmes foram feitos na cidade entre os anos 70 e 80, filmes não só passados na cidade, mas com ela como tema? Reichenbach? Candeias? Khouri? E a geração dos anos 80 (Chico Botelho, Wilson de Barros, André Klotzel)? Essas imagens existem, mas muitas delas foram abandonadas por diversas razões, muitas porque nunca interessou mesmo cuidar da imagem da cidade – o que importa muitas vezes é só o dinheiro o mesmo.

Não falo da difusão das imagens como uma espécie de dirigismo cultural, como se o Estado se apropriasse dessas imagens para exportar São Paulo para o mundo (essa questão do dirigismo cultural já foi tratada por gente mais inteligente e gabaritada, e com certeza acontece num nível menos perceptível que a aberta divulgação da imagem da cidade por aí), mas como construção de uma identidade. Se essa construção nunca foi feita, é porque não se preservou nada (imagens, história, cultura), não houve preocupação suficiente nem por parte do Estado nem dos produtores, que agora encampam esse protesto. Pois como parece próprio de São Paulo, interessa o futuro, o novo, o moderno, o conforto, o mais rápido, o mais prático. Nunca a preservação da história, seu passado, sua imagem, principalmente quando ela coloca São Paulo de frente para o espelho.

Indústria, a velha indústria

Claro que o segundo argumento não poderia deixar de ser a tal da indústria: muitos empregos serão perdidos no caso da falta de verbas. Porém, há um curto circuito aí.

Desde que entrei na faculdade de cinema, a principal reclamação da categoria – já de muito tempo – é a quase impossibilidade de se viver exclusivamente do trabalho com cinema. Exatamente, pela falta da indústria consolidada. Ou seja, os profissionais da tal indústria remendada paulista tem de entrar na publicidade, televisão ou no mercado dos documentários institucionais. Quando passei a trabalhar no mercado, a realidade se mostrou mais crua: poucos conhecidos sustentam-se apenas exclusivamente com o cinema – ou seja, apenas com produção de conteúdo para salas de exibição de filmes projetados. Aqueles que não trabalham com a publicidade nem com os institucionais, buscam a academia e acabam nas salas de aula do crescente número de escolas de cinema – que por sua vez preocupam-se em formar profissionais para o mercado de trabalho, leia-se no fim das contas, a televisão, a publicidade e o documentário institucional.

Como a própria propaganda anuncia, “na publicidade, somos ponta”, pois é esta verdadeira indústria do audiovisual paulista e é a ela que os profissionais recorrem. O cinema é o “lastro cultural” almejado, às custas da pátria-amada-idolatrada-salve-salve. Então, cabe a pergunta: por que a “publicidade de ponta” de São Paulo, com seu volume de negócios, a quantidade de dinheiro em jogo e os profissionais que jogam em ambas as posições, não construiu uma ponte com a produção para cinema? Por que as grandes produtoras de publicidade, que em geral mantêm um braço para a produção cultural, não conseguiram financiamento para os projetos pessoais de seus realizadores usando esse grande mercado como propulsor? Isso é assunto a ser estudado mais a fundo ainda, porém desconfio ser fator importante a falta de iniciativa por parte desses produtores que, resignados com os mecanismos de incentivo à cultura das últimas duas décadas, preferem o paternalismo a arriscar sua carteira de clientes com uma produção de alto risco.

O dinheiro público está aí e é importante, sem dúvidas, pois a relação do mercado como um todo com o cinema brasileiro nunca foi harmoniosa e os produtores, em geral, não vêem os distribuidores e exibidores como parceiros comerciais e vice-versa. O problema é quando se percebe que aqueles mais empenhados nas campanhas pelo dinheiro estatal são realizadores cuja carreira deveria estar mais consolidada. Parece mais frutífero que as verbas públicas entregues diretamente por órgãos estatais estejam direcionadas para a renovação dos quadros, para a revelação de jovens realizadores e produtores, para as produtoras que não mantém relações com televisão, institucional ou publicidade, ou então para a continuidade da obra de diretores mais velhos cuja obra corre o risco da interrupção sem essa verba (penso principalmente no Reichenbach e no Giorgetti). Enfim, o dinheiro direto do Estado servindo para uma política cultural de fato (com riscos evidentes), sem o retorno financeiro como fator prioritário, um olhar para pessoas e não para mercados, uma política visando cinema e não o estabelecimento da indústria do audiovisual paulista – que no fundo significa dar dinheiro a quem já tem condições de consegui-lo. Essa consolidação industrial, o dinheiro estatal parece incapaz de realizar nos atuais moldes das leis de incentivo à cultura. Pelo contrario, o audiovisual é cada vez mais dependente delas à medida que os orçamentos crescem desproporcionalmente ao possível rendimento de um filme nas salas pelo país.

A passos de siri

Talvez pela lógica do “não chora, não mama”, o vídeo alardeie que o cinema paulista está andando para trás, uma forma de pressão antiquada e mesquinha, reflexo da gana pelo dinheiro sem querer de fato mudanças estruturais no uso dele.

Na verdade, o cinema paulista não está andando para trás, mas estagnado. Ele vive de cineastas que se formaram na profissão e começaram suas carreiras antes da Retomada (ainda que tenham estreado no longa depois, na virada dos anos 90 para os 2000, isso não significa que fossem jovens cineastas), mas ainda não “aconteceram” e nem fizeram “acontecer”.

A sensação mais precisa é de que o cinema paulista não se renova ou o faz muito lentamente. Nas rodas de festivais, hoje se fala no cinema cearense, mineiro, pernambucano. Mas como pode alguém não falar do cinema paulista?! Sem a inocência de desconsiderar o entusiasmo com um cinema feito fora dos grandes centros como parte da política dos festivais, o que marca esses três cinemas (e não apenas) é a quantidade de jovens fazendo filmes que tentam escapar do espaço legal – aqui entendido como Jean-Claude Bernardet formula em seu livro Cinema Brasileiro: Propostas para uma História – estabelecidos pelos editais e leis de incentivo. Quando se exalta o cinema pernambucano de agora, não se refere a Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Cláudio Assis, mas a Gabriel Mascaro, Marcelo Pedroso, Tião, Marcelo Lordello, todos realizadores jovens e desconhecidos há seis ou sete anos atrás.

São Paulo, por outro lado, parece o cinema mais acomodado a esse espaço legal estabelecido pelos editais, leis de incentivo e o mercado exibidor. Nada se faz sem o apoio e o dinheiro do Estado, nada se faz sem visar o mercado, nada se faz sem política, nada se faz sem dinheiro. Ou nada se faz. Os filmes feitos “na raça”, sejam curtas ou longas, são casos raríssimos. Com o advento recente do edital de Paulínia e seu financiamento aparentemente sem fim, São Paulo dá a impressão de um paraíso legal do dinheiro público para o cinema e, como consequência, a acomodação dos realizadores a esse dinheiroduto. Assim, o artista, aquele que vai quebrar as barreiras da legalidade, o subversor das regras, prefere acomodar-se e esperar pela chance de agir dentro desse espaço legal. São Paulo tem hoje talvez a cinematografia mais engessada pela mecânica do financiamento público do Brasil.

No outro extremo, os grandes sucessos de bilheteria dos últimos anos vêm massiçamente do Rio de Janeiro (e pra quem acredita nesse bairrismo, essa frase soa como o novo versículo do apocalipse), mas são filmes cariocas apenas no sotaque e nos cartões postais, poderiam ser realizados em qualquer estúdio que justifica um alto investimento predatório do dinheiro meu-seu-nosso. Enquanto o cinema comercial carioca existe dentro dos estúdios, o paulista é feito nos escritórios dos publicitários, pois afinal eles sabem mais do que ninguém o que o público quer, e a relação é de venda de produtos e não de feitura de filmes.

Algo que escapa ao vídeo é o quanto é preciso olhar para os próprios filmes. O panorama é simples: filmes não-comerciais acomodados dentro de um espaço legal e filmes comerciais que são fracassos de bilheteria porque são ruins como filme e como produto. São Paulo parece uma cidade de onde sai um cinema irrelevante.

A luta não deveria ser apenas contra a diminuição das verbas, mas também por mudanças estruturais no uso do dinheiro do público e, principalmente, na criação de novas formas de financiamento que livrem os cineastas de tornarem-se reféns (mais uma vez!) dos departamentos de marketing dos patrocinadores e das comissões de editais das secretarias de cultura (outro lembrete: o tema do dirigismo cultural via comissões de editais é assunto a não ser esquecido). Essa iniciativa não necessariamente diz respeito apenas a políticas públicas, mas a pensar em cinema – diferente, por outro lado, de pensar em indústria e mercado. Ou seja, diz respeito a essas pessoas que faz duas décadas “pensam” e comandam as políticas cinematográficas em São Paulo.

E o dinheiro afinal?

Esses fragmentos de idéias chegam, enfim, no dinheiro, pois parece que é disso que se trata o vídeo (o primeiro verso da música final fala sobre dinheiro, vejam só).

O corte na verba é algo que realmente não deve acontecer, pois hoje sem verba estatal não há cultura. Sem os editais de fomento, não há filmes, pelos menos por agora. O problema é a relação de total dependência: sem um, não há o outro. E todos os dados apontam que a situação poderia ser outra, pelo menos em São Paulo: existe dinheiro, profissionais em abundância, talentos por aí tentando viabilizar seus projetos.

A relação de dependência total do Estado tem um fator que o governo Collor já provou: o quanto o desinteresse por parte do Estado em continuar com esse financiamento é desastroso.

O significado real do Estado financiar o cinema passa, então, pelo interesse dele no cinema, em vários níveis. Ou alguém acha que quando as secretarias de cultura abrem editais com temas específicos como Crônicas da Cidade e Doc Bairros, isso não demonstra abertamente um interesse em algo que o cinema pode dar a ele? Ora, um cinema que não ganha destaque dentro do circuito de festivais nacionais e internacionais e nas revistas críticas, não consegue grandes resultados de bilheteria e, como diz a narração do vídeo, não espelha a cidade e sua população, incapaz de construir uma imagem dela (por mais que a narração insista que o dinheiro é necessário para fazê-la), deve ser financiado por que, cara pálida?

Entende a fragilidade?

Ou se troca as pessoas, ou se joga o dinheiro no lixo.

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