Sobre ‘convenção’

“O que deve sempre ser enfatizado é a profunda relação entre os métodos de escrita e encenação e determinadas visões da realidade. A cada nova geração, é comum chamar de tradicionais os métodos e convenções anteriores, mas numa arte como o teatro, um novo método bem-sucedido é, em si, uma convenção. (…) O que se chama de convencional, no sentido de uma rotina antiga, é o método ou conjunto de métodos que apresenta um tipo diferente de ação, e, por meio dela, um tipo diferente de realidade.

(…)

Mas então encarar o problema como um problema de convenções é o mesmo que suscitar, de modo mais aberto, questões muito semelhantes sobre a ação dramática e sua relação com a realidade. Afinal, uma convenção não é somente um método, uma escolha técnica voluntária e arbitrária; ela traz consigo todas aquelas ênfases, omissões, avaliações, interesses e indiferenças que compõem um modo de ver a vida e o teatro como parte da vida. Sem dúvida, devemos insistir que o coro e os atores mascarados no Teatro de Dioniso, em Atenas, não eram menos reais do que os atores com roupas de época no cenário mobiliado de Caste, no Prince of Wales Theatre, em Londres. Mas também temos de reconhecer que a realidade, nos dois casos, depende de todo um conjunto de outros interesses, reações e suposições – na verdade, daquele conjunto de interesses e valores que chamamos de uma cultura específica.

(…)

Afinal, é verdade que em parte da tradição dramática, desde o duelo em Hamlet até o envenenamento em Solhaug e em seus muitos equivalentes e sucessores, a ação de um tipo que parecia direto foi constantemente levada ao palco, sendo bastante popular. A questão é por que esse tipo de ação tem sido tão comumente relegado aos níveis com menos credibilidade do drama: “sensacional”, “épico”, “muita ação e nenhuma experiência”. Não há dúvidas de que a maior parte dessas ações diretas se isola e se esgota em si mesma. Em determinados momentos de ação, a batalha ou a perseguição surgem com uma previsibilidade que deixa claro que, qualquer que seja a nossa reação a ela no momento em que acontece, normalmente não vimos ou aprendemos nada que gostaríamos de lembrar: que nenhuma experiência dramática foi criada em sua plenitude, mas uma atividade emocionante, ainda que fugaz. No entanto, não podemos concluir a partir disso que a simples exclusão desse tipo de ação – e portanto a resolução de todos os conflitos dentro do espaço da sala ou da mente – seja uma garantia maior de densidade dramática. A suposição de que essa garantia existe tem mais a ver com certos hábitos de nossa cultura do que com as possibilidades intrínsecas do drama.”

Raymond Williams, Drama em cena, pgs 220-226

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