3 questões do cinema brasileiro de 2013 para 2014

1. O final de Tatuagem

Assusta um pouco o silêncio em torno do final de Tatuagem e a aceitação passiva que o filme recebeu, pelo menos na grande imprensa. Em seus dois primeiros terços, Tatuagem é um filme no máximo regular, com alguns momentos de graça no interior das performances dos atores (o ator que faz Paulete é um achado), mas um filme bem pouco inventivo – por vezes tenho a impressão do filme resolver todas cenas num plano geral e, em seguida, num close que varre os pontos importantes da cena.

O terço final, por sua vez, é assombroso. Cria-se a tensão entre o espetáculo que desafia a ordem em montagem paralela com o exército em direção ao lugar do show. O confronto parece inevitável. Porém, ele é negado; a câmera permanece do lado de fora, a cena acaba e percebemos uma elipse de tempo que mostra as personagens já algum tempo depois. No final, um exibição de um filme experimental com toques de Jonas Mekas-Jairo Ferreira, um sacramento da experiência do grupo teatral, sua proposta de vida e de arte.

Essa elipse é o ponto da discussão. O corte da cena sem mostrar a entrada do exército interrompendo o espetáculo, me parece, foi tomado como um negação de dar voz à opressão. De um lado, os artistas são protegidos, a violência não tem espaço e não se corre o risco da simplificação. Essa elipse é problemática, não acho que o jogo seja tão simples assim. Existe uma questão de memória da ditadura e apropriação da História do país que o cinema sempre teve problemas para resolver enquanto mise en scène. “Não mostrar” muitas vezes é mais elegante do que “mostrar”, principalmente quando se trata da repressão policial. Por outro lado, a questão que o filme não responde é “por que não mostrar?”. O que essas vítimas tem de mais especiais que as tornam superiores à violência policial? Como escaparam, como resistiram? É uma elipse “buraco-negro”: muita coisa se perde ali. Ela não é tão simples, não trata apenas de elegância, dar voz ou não. Trata-se da mais filosófica questão do cinema moderno: mostrar ou não mostrar como criação de conhecimento.

2. Exilados do Vulcão e seu interlocutor

Parte do cinema brasileiro na última década teve como parâmetro o cinema, principalmente europeu, dos grandes festivais internacionais. Importaram-se alguns dispositivos do cinema contemporâneo como convenções para temas, cenários e histórias “nacionais”. De qualquer maneira, se estabeleceu, na maior parte dos filmes, uma relação fetichista: o melhor do cinema internacional é assim, façamos assim também. Proliferaram discursos sobre o imediatamente perto, o elogio da simplicidade, a desdramatização, os temas regionais e particulares, o micro-universo em detrimento do macro-universo e das generalizações.

Exilados do Vulcão é um caso interessante para se pensar: ele não se coloca em diálogo com o “cinema brasileiro”, mas do “cinema universal”. Se é feito do que de melhor se produziu no cinema brasileiro na última década, me parece um filme atento a diminuir o peso que o “brasileiro” dispensa sobre o “cinema”. Trata-se de alma, corpo, forma, ruído, espaço, coloca tudo isso em erosão e se coloca em pé de igualdade ao almejado cinema contemporâneo. Há uma fragilidade evidente no filme, própria dessa erosão das formas, dos gestos, dos corpos. Mas não são a fragilidade, a erosão, a imperfeição os ideais do cinema contemporâneo brasileiro?

3. Os questionamentos de A cidade é um só?

Não interessa aqui se é o melhor ou não, trata-se de uma questão de processo: ainda que não tenha o sucesso de bilheteria nem a presença nas listas de fim de ano, o filme brasileiro mais importante lançado em 2013 foi A cidade é uma só? de Adirley Queirós.

Primeiro porque o filme vai na contramão de parte do que eu disse sobre a produção brasileira no item anterior ao não se importar muito com o cinema contemporâneo. Perde-se em consistência narrativa e atualidade o que se ganha em espontaneidade e modernidade. E ACÉUS? é o mais espontâneo e moderno filme brasileiro em muitos anos (à propos: “espontaneidade”, outro valor do cinema contemporâneo).

Afora isso, o filme vai fazer diversos percursos e abrir questões: trata da Ceilândia para dar conta do Brasil, mostra a atualidade para resgatar os anos 70 e dar a volta para o agora; suja as purezas da “boa forma de cinema” para chegar ao mais límpido desejo de poder, sobrevivência, resistência e, essencialmente, de cinema. Questiona-se no filme a História, mas também a produção da memória; questiona-se a autoridade, mas também a personagem que se encaminhou passivamente para esse suicídio; questiona-se a personagem, mas também o cineasta atrás da câmera.

Filmar porque tem de ser filmado, mostrar porque tem de ser mostrado. Não por necessidade, mas por desespero. É preciso então descobrir como fazê-lo. Esse processo está no filme como em nenhum outro filme-processo brasileiro recente. E abre o precedente a um filme-processo que é questionar o papel do cineasta e da arte nos rumos da vida e da História. Se não me enganou, o Fábio Andrade em seu texto de cobertura de Tiradentes compara ACÉUS? com Bastardos Inglórios e os gestos dos dois filmes de fato se encontram em algum lugar. A diferença essencial é que Tarantino tem o poder de matar Hitler num cinema em Paris e reescrever o final da segunda guerra mundial. No filme de Queirós, o cineasta está impotente, faz tão parte do jogo quanto suas personagens e não há salvação no mundinho da arte.

ACÉUS? me parece abrir questionamentos de algumas certezas (estética, políticas, cinematográficas, sociais, artísticas ) ainda a serem discutidas em 2014, 2015, 2016…

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1 comentário
  1. Olá!

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    marcos@cinematotal.com

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